Fui acordado por volta das cinco horas da manhã por um barulho estridentemente repetitivo que não se assemelhava em nada ao despertador do meu telemóvel. Ainda meio grogue, tentei perceber de onde vinha o barulho e, depois de olhar para a mesa de cabeceira, não demorei a perceber que era o telefone que estava a tocar. Mas porque raio me estavam a ligar àquela hora? Seria o serviço de bons dias? Atendi. Era uma senhora, tão simpática quanto a hora madrugadora o permitia, a dizer que a minha excursão para o Grand Canyon partiria do terminal de autocarros do hotel daí a quarenta e cinco minutos. Agradeci a chamada e desliguei. Olhei para o telemóvel, conferi que o despertador estava activado e voltei a encostar a cabeça na almofada. Acordei meia hora depois com ele a tocar, mas só saí da cama cerca de vinte minutos antes da hora marcada. Lavei os dentes, vesti-me e desci - tudo muito rapidamente, uma vez que não tinha tempo a perder. A caminho do ponto de encontro, passei pelo casino, que parecia não ter perdido nem um bocadinho da energia que tinha cerca de seis horas antes quando eu lá tinha estado a jogar. Parei numa pequena loja de conveniência, ainda dentro do casino, e comprei uma garrafa de água, que certamente me viria a ser útil quando a sede apertasse ao longo do dia.
O ponto de encontro ficava nas traseiras do hotel e tinha espaço para um autocarro e um par de carros. Estavam lá bastantes pessoas à espera e a cara de sono e de quem podia ter dormido mais uns minutos era comum entre nós. Às seis horas o autocarro não estava lá e começou-se a gerar alguma confusão com algumas pessoas a perguntarem se aquele seria o sítio certo. Eu tinha conferido na noite anterior, antes de subir para o meu quarto, e a menina da recepção tinha-me confirmado que era ali, por isso não estava grandemente preocupado com o assunto. Caso não fosse ali o sítio certo, pensava eu, ao menos não era o único a ficar pendurado. Estava com alguma sede (por causa da barra de cereais que tinha trazido do quarto e comido) e tentei abrir a garrafa de água para dar um gole mas, depois de tentar algumas vez, não estava a conseguir fazê-lo com sucesso. Achei que foi por a tampa estar molhada e guardei a garrafa para tentar de novo no autocarro, que chegou entretanto. A chamada foi muito semelhante à que é feita na escola: o condutor tinha uma lista de nomes e ia dizendo-os alto até que um braço no ar indicasse que essa pessoa estava presente, verificando depois o bilhete e riscando o nome da lista. Este processo demorou algum tempo porque, obviamente, pôr um americano a dizer nomes em mais de meia dúzia de línguas diferentes não podia dar bom resultado. Felizmente, eu sou alfabeticamente abençoado e não demorou até que o meu nome fosse chamado e eu pudesse entrar para dentro do autocarro e escolher um bom lugar, que acabou por ser lá mais atrás, junto à janela. O meu plano era muito simples: dormir até chegar ao Grand Canyon que, de acordo com a confirmação da reserva, ainda estaria a umas boas três horas de distância.
O autocarro, que não era assim nada de especial embora estivesse a anos luz dos da Greyhound, foi enchendo aos poucos e, muito para mal dos meus pecados, ao meu lado sentou-se um tipo inglês que estava com um amigo a conversar alegremente, entre bancos, com uma canadiana que tinha conhecido à entrada do autocarro. A conversa foi evoluindo rapidamente até chegar ao ponto em que era notório o interesse mútuo entre partes. Eu estava a ficar um bocado enjoado com a troca de elogios e impressões (do mais cor-de-rosa, cliché e enjoativo possível) e decidi pôr os meus headphones para ouvir alguma música antes que me visse obrigado a mudar de lugar devido a uma indisposição matinal. Para todos os efeitos eu ainda não tinha acordado, não àquela hora! O condutor entrou e seguimos viagem. Parámos em mais dois hotéis antes de seguirmos para um terminal grande, a meio caminho entre o aeroporto e o centro da cidade. Depois de pararmos, entrou um tipo no autocarro que disse que íamos ter que sair ali para fazermos o check-in e sermos divididos pelos autocarros da tour. Disse para termos atenção ao tipo de tour que tínhamos marcado e que à chamada, fossemos para onde ele tivesse indicado. Não estava a contar com isto, mas também não fiquei muito chateado. Aborrecia-me mais o facto de não ter conseguido abrir a garrafa das vezes que o tentei voltar a fazer dentro do autocarro; estava mais que danado e cruzou-me o pensamento várias vezes guardar a garrafa até ao fim do dia e ir lá fazer queixa à loja. Acabei por deitar a garrafa fora, uma vez que o preço que ela tinha custado certamente não valeria o incómodo de a carregar o dia todo.
Quando chamaram a minha tour - que incluía uma visita aos dois miradouros no West Rim do Grand Canyon e almoço - fui para dentro do edifício e coloquei-me junto à parede, do lado esquerdo, na fila para o check-in. Entretanto veio outro senhor explicar brevemente o que ia acontecer durante o dia e que se alguém quisesse fazer um upgrade ao pacote comprado (adicionar uma viagem de helicóptero, descer até ao rio com um guia, visita guiada de jipe, entre outros) o podia fazer na caixa antes de pagar. Eu como só queria ir ao Grand Canyon para, literalmente, ver a vista, deixei-me ficar quieto na fila à espera que a mesma se começasse a movimentar. O ambiente era o ambiente habitual de excursão com muita gente demasiadamente excitada, boa disposição a rodos e muitas famílias. Como estava a ouvir música, tudo o que se passava à minha volta era-me meio indiferente. A fila lá começou a andar passado um bocado e o check-in fez-se bem. Também, diga-se, não tinha grande ciência. Entreguei o papel da confirmação que tinha impresso e troquei-o por um bilhete. A senhora da caixa disse-me que tinha direito a um pequeno-almoço, oferecido por eles, na sala ao lado e que ia ter que esperar lá até que me chamassem de novo. Agradeci e fui para a tal sala.
A sala era grande e parecia uma daquelas salas preparadas para uma recepção de casamento (menos a decoração, claro): tinha duas ou três mesas em fila e um balcão onde se podia ir pedir o tal pequeno-almoço de que ela tinha falado. Como não tinha fome (nem paciência) não me enfiei na fila que entretanto se formou aí. Optei por comprar uma garrafa de água na máquina e ir à casa de banho. Depois de esperarmos ali um pouco chamaram-nos para ir para o autocarro. Eram dois autocarros pretos bastante imponentes, com dois andares e vidros fumados e um aspecto bem melhor do que o que nos tinha levado até ali. Não tinha razão para achar que ia ser uma má viagem, o autocarro prometia. Formou-se uma pequena fila à entrada de um dos autocarros e eu, tendo sido uma das primeiras pessoas a sair de dentro da sala de espera, juntei-me a ela quase no início. Na noite anterior tinha olhado para a previsão metereológica e reparei que a previsão era de chuva. Achei estranho, tendo em conta a altura do ano, mas não querendo ficar encharcado caso chovesse mesmo, decidi ir de calças e levar o meu corta-vento. Pouco depois de sair cá para fora senti uma ou duas pingas a cair do céu e não pude deixar de sorrir por dentro. O mais engraçado foi ver que a maioria das pessoas vinha vestida como se fosse para ir para a praia (os dias de Setembro no Grand Canyon são, geralmente, quentíssimos) e estavam notoriamente chocadas com o prospecto de apanharem chuva.
Arranjei um lugar junto à janela no fundo do autocarro, que foi enchendo e enchendo até que um tipo que trabalhava para a empresa me veio perguntar se eu estava sozinho. Eu disse que sim, que estava. Ele pediu-me para mudar de lugar porque havia duas pessoas que queriam ir juntas e já não havia mais lugares de dois. Por muito que me apetecesse dizer que não, tive que o fazer. Principalmente, não queria empatar a vida de toda a gente que ali ia. Sentei-me então mais à frente junto a um tipo que fazia parte de um grupo de três. Não demorou muito até que eu percebesse que eles eram os três brasileiros e que o que ia ao meu lado não falava uma palavras de inglês. Depois do autocarro encher completamente, o motorista entrou e apresentou-se. Era o Mike, um pretão que se estava sempre a rir e a fazer rir. Mais que um motorista, ele era um entertainer e eu acho que essa é uma componente importante neste tipo de viagem. Mal se sentou ao volante disse para toda a gente tirar da cabeça a ideia de ir dormir até chegar ao Grand Canyon, uma vez que ele ia falar connosco até lá chegarmos. Foi nesta altura que percebi que o tipo que ia à minha frente ia passar a viagem a traduzir para inglês tudo o que o Mike ia dizendo, para o tipo que ia ao meu lado. Não era o fim do mundo, mas acho que conseguia passar bem sem a tradução simultânea. Já a caminho, o Mike pôs-nos a ver um vídeo sobre o Grand Canyon e as tribos que o habitam. Era interessante, mas confesso que os meus olhos se fecharam prolongadamente mais que um par de vezes enquanto o visionávamos.
A primeira paragem ia ser na Hoover Dam, algo que eu estava extramamente excitado para ver. Infelizmente, por causa da chuva (que, tinha o Mike dito por esta altura, só representava 3% do ano em Las Vegas) não íamos poder parar mesmo na ponte, por questões de segurança. A minha excitação devia-se à monstruosidade da estrutura da barragem, pela qual nutro algum fascínio há bastante tempo. O Mike sugeriu parar o autocarro um pouco mais à frente, num sítio em que dava para ver a barragem e disse que quem quisesse podia sair para ir ver e tirar umas fotografias. Nesta altura o céu estava nada menos que medonho: cinzento e com névoa, para além de estar a chover já com alguma intensidade. Era óbvio que eu não ia ficar no autocarro, já que tinha trazido o corta-vento ia dar-lhe uso. Saí e corri até debaixo de um toldo, de onde corri para baixo de outro toldo até arranjar espaço para poder tirar algumas fotografias. Daquele sítio via-se a parte de trás da barragem e, ainda que fosse interessante, não era bem aquilo de que eu estava a procura. Teve que servir o propósito, ficando uma visita guiada à barragem agendada para uma possível futura visita. Depois de ir a uma pequena loja de lembranças da barragem, voltei para o autocarro, regozijado com as caras de pânico que os turistas mais veraneantes iam exibindo.
O Mike era engraçado e foi falando o tempo todo. Não deu para dormir mas também não aborreceu, até porque a pouco e pouco fui-me habituando à tradução simultânea para português do Brasil que tinha à minha frente. A paisagem era aridamente desértica, decorada com largos postes de electricidade que se repetiam a cada centena de metros, unidos pelos respectivos fios eléctricos e complementados por uma série de imponentes montes escuros, lá muito ao fundo, que completavam o cenário. Havia algumas verduras, mas eram raras. O céu continuava num tom cinzento, algo assustador, mas o Mike dizia que muitas vezes, tendo em conta que o Grand Canyon ainda ficava a um par de horas de distância dali, o clima não era necessariamente igual. Ele tinha esperança que esse fosse o caso e nós, nós não tínhamos remédio senão ficar também esperançados! Parámos numa estação de serviço no meio do nada (literalmente!) e saímos para uma pausa. Houve quem aproveitasse para ir à casa de banho ou para comprar comida ou lembranças. Era uma barraca que vendia um pouco de tudo e mais alguma coisa. Comprei umas Pringles e uma Coca-Cola; caso o almoço no Grand Canyon não fosse nada de especial, ao menos assim não ia ter fome até voltar a Las Vegas. Sabia que não era a opção mais saudável mas também, dadas as circunstâncias, não estava grandemente preocupado com isso.
Seguimos viagem alguns minutos depois dos passageiros regressarem todos ao autocarro. Antes de chegarmos a um sítio onde iríamos (mais uma vez...) trocar de autocarro, passámos numa terra que tinha muito poucos habitantes. Tão poucos habitantes que nem sequer tinham água potável. O Mike contou umas histórias engraçadas sobre a terriola, que pouco mais passava de uma rua com atrelados de ambos os lados e alguns edifícios soltos aqui e ali. Parámos num descampado onde estavam estacionados uns quatro autocarros muito piores do que aquele em que tínhamos viajado até ali. Ele rapidamente explicou que dali, o caminho até ao Grand Canyon ia ser feito por uma estrada de terra batida, de modo que eles tinham uns autocarros mais antigos e em pior estado já preparados para a viagem. Dividiram-nos de novo por autocarros e seguimos, finalmente, em direcção ao nosso destino. Não demorámos muito tempo a chegar à reserva dos Hualapai, a tribo que habita na zona do Grand Canyon que íamos visitar. Havia duas tendas modernas bastante grandes e que serviam de entrada para a reserva natural. Foi-nos dada uma hora de regresso, cerca de três horas depois e a partir daí pudemos gerir o nosso tempo da forma que quisemos. A tenda estava ocupada por uma loja que tinha todo o tipo de artigos possíveis e imaginários sobre o Grand Canyon e a tribo dos Hualapai. Nada que me espantasse. Dei uma curta volta por lá e decidir sair pela porta oposta àquela por onde tinha entrado. Já dentro do parque, para chegar ao primeiro miradouro ia ter que apanhar (mais) um shuttle, que estava estacionado uns metros mais à frente. Havia dois miradouros nesta parte do Grand Canyon: o Eagle Point e o Guano Point. Para além deles, podia-se também visitar um rancho pertencente aos Hualapai.
Decidi começar pelo Eagle Point, uma vez que era para lá que ia o shuttle. Este shuttle era um autocarro muito semelhante ao que nos trouxe no último terço da viagem e que percorria os dois pontos com intervalos regulares. As distâncias eram compridas o suficiente para justificarem uma viagem de autocarro e a pequena espera que daí surgiria. A caminho do primeiro miradouro, a senhora que controlava as entradas no shuttle disse, entre vários factos interessantes sobre o Canyon, que não morria ali ninguém por queda há vinte e três anos e que, se fosse possível, adorava que esse recorde se mantivesse - advertindo depois cautela. Mal parámos no Eagle Point e as portas se abriram, houve um pequeno grupo que rapidamente encheu o corredor para poder sair do autocarro. Eu esperei até poder sair calmamente, não estava com grande vontade de me misturar com turistas eufóricos. Eu era, muito provavelmente, o único visitante que ali estava sem companhia - diga-se em tom de curiosidade. Saí o autocarro e respirei fundo, afinal de contas estava no Grand Canyon!
A primeira coisa em que reparei, para além da vastidão que o Canyon nos apresenta, foi que não havia qualquer tipo de protecção que nos impedisse de cair lá para baixo. Fazia assim mais sentido aquilo que a senhora tinha dito no autocarro sobre as quedas. O miradouro ainda era bastante largo, localizado num dos pontos (acessíveis de carro) mais altos do Canyon e oferecia uma belíssima vista sobre ele. Felizmente não chovia, ainda que o céu continuasse tão medonho como na última paragem que tínhamos feito. Apressei-me até à melhor zona do miradouro e deixei-me absorver um pouco pela vista. Tudo aquilo que já tinha lido e visto sobre o Grand Canyon não fazia o mínimo jus ao que eu estava a presenciar diante de mim - o Grand Canyon engoliu-me inteiro e eu não conseguia acreditar que ali estava. É uma beleza difícil de explicar e que tem que ser vista para ser sentida. Em algumas partes do Canyon, a altura chega a ser de quase dois quilómetros e é difícil não sentir quão pequenos somos em relação ao mundo depois de experienciar tal grandeza. Fiquei lá mais algum tempo a observar e a absorver a vista de vários pontos no miradouro e aproveitei para tirar o máximo de fotografias possível - isto era algo que queria, definitivamente, recordar mais tarde.
O Eagle Point, chamado assim por ter numa das rochas uma forma que se assemelha ao formato de uma águia em voo (sagrada para os Hualapai), é também o sítio onde está localizado o Skywalk, uma estrutura com um chão de vidro (ou um qualquer outro material transparente) que, numa forma em U que sai para fora da borda do Canyon, deixa as pessoas verem o fundo do Grand Canyon como se estivessem suspensas no ar. Infelizmente, o preço elevado e o facto de não se poder entrar com máquina fotográfica fizeram com que o meu interesse em lá ir ficasse reduzido a muito pouco ou nenhum. Junto ao miradouro havia também uma espécie de restaurante, mais propriamente dois contentores transformados em cozinha, que serviam comida. A refeição estava incluída no preço da tour por isso só tive que me dirigir ao guichet e pedir a opção vegetariana. Depois de me darem o recibo tive que ir levantar a comida a outro contentor, que ficava uns metros ao lado. Esperei um pouco pela comida, que ficou longe de me impressionar - nada que eu não estivesse à espera. Era uma sanduíche que não primava pela qualidade da confecção, umas batatas fritas de pacote, uma peça de fruta e um refrigerante. Como estava com alguma fome e não tinha grandes expectativas em relação ao almoço, considerei-me contente por ter direito a uma opção vegetariana e fui-me sentar a comer. Havia muitas mesas em frente aos contentores e, como não chovia, a grande maioria estava cheia.
Depois de comer e de dar uma volta numa pequena construção dos Hualapai que, diga-se, não era assim muito interessante, fui-me colocar na fila para o shuttle, que nesta altura ainda não era muito grande. Enquanto esperava, os meus níveis de tolerância para com turistas barulhentos, piadas más, conversas sobre nada e exibição gratuita de vários tipos de anormalidade ficaram reduzidos a zero e tive que pôr os headphones até o shuttle chegar - cerca de quinze minutos depois. A viagem até ao Guano Point não demorou muito tempo mas, de novo, justificou totalmente a viagem de autocarro. Ao contrário do Eagle Point, que apenas apresenta a vista numa direcção, o Guano Point apresenta uma vista quase disempedida a 360º, tendo inclusive um pequeno monte que se pode subir para se ter uma vista difícil de igualar. A vista deste miradouro é melhor por ser mais abrangente e, de certa forma, profunda que a outra. Perdi aqui bastante tempo, por haver mais espaço e possibilidade de estar sozinho sem histerismos à minha volta. Parei junto a uma das melhores vistas e absorvi-a o máximo que pude durante vários minutos. O Grand Canyon estava-me a fazer sentir pequeno como ser humano e a fazer-me reflectir sobre a minha posição na vida. Várias questões assaltaram a minha mente naquele momento, tendo a mais importante sido aquela em que me questionei sobre se passar a vida num escritório a trabalhar das nove à cinco era o que eu queria fazer enquanto o mundo me reservava surpresas destas ao virar da esquina. Naquele momento eu estava a viver e, mais que isso, estava-me a encontrar a mim mesmo.
Depois de subir e descer do topo do monte, que ainda era ligeiramente alto e de acesso rudimentar, voltei calmamente para trás, até à paragem do shuttle. Sentia-me cheio por dentro e inspirado até mais não. Não tinha dúvidas de que esta tinha sido uma das melhores experiências da minha vida e, certamente, uma a repetir um dia mais tarde - eventualmente de forma mais profunda. O shuttle seguiu para o único ponto que me faltava: o rancho. Ainda tinha algum tempo (embora não fosse muito) e não me queria ir embora sem ver tudo aquilo a que tinha direito. Chegámos lá pouco depois e a minha primeira impressão foi de desapontamento. Como já estava quase na hora do fecho, não havia muitas coisas abertas no rancho mas, mesmo assim, o que vi não foi nada que me impressionasse. Basicamente era um rancho recriado ao estilo de um western, com uma prisão, uma forca, uma casa de gado, um saloon, etc...! Pareceu-me tudo um bocado forçado e "para turista ver". Dei uma volta rápida dentro do rancho e voltei cá para fora, onde fiquei a ver a paisagem do Canyon à distância. De onde estava só conseguia ver o topo das rochas lá ao fundo na planície. Enconstei-me lá numa cerca à espera que o próximo shuttle viesse e, quando o fez, fui o primeiro a entrar. A viagem até ao centro de visitas não foi muito comprida e, uma vez lá chegado, dei outra curta volta lá dentro, não comprando nada. Estava contente pela experiência e também com o facto de não terem chovido mais que algumas gotas, que não deram sequer para ficar molhado. Depois de levantar um certificado de visita ao Grand Canyon, gentilmente assinado e oferecido pelo chefe da tribo, segui para o autocarro, onde me sentei à espera que partíssemos. Não tinha sido o primeiro a chegar mas ainda ia ter que esperar cerca de meia hora até que o autocarro enchesse completamente e seguíssemos.
O caminho de regresso foi muito semelhante ao anterior, salvo a paragem para trocar de autocarro que, desta feita, nos deu algum tempo para ir ver as Joshua Trees - um tipo de árvore peculiar muito característico daquela zona. A partir daí, de novo com o Mike, a viagem fez-se lindamente, ao som das histórias que ele ia contando. Chegámos a Las Vegas já ao anoitecer, depois de um dia que tinha sido bastante comprido. À chegada, o Mike - convenientemente - falou das dificuldades financeiras de Las Vegas e de que nem tudo é como parece, de modo que uma gorjeta (merecida, a meu ver) seria mais que bem vinda. Aproveitou também para dar algumas dicas de jogo que, de certa forma, me vieram a dar jeito mais tarde. Ao contrário do dessa manhã, este autocarro ia-nos deixar directamente aos hotéis, não sendo preciso ir à estação onde tínhamos feito o check-in. Saí num hotel que ficava próximo do meu e dei-lhe uma gorjeta de $5 à saída. Reparei que pessoas que iam à minha frente e atrás de mim lhe deram notas de $10 e $20, o que levou a questionar quão bem pago seria aquele emprego. Claro que, como ele admitiu, muito daquele dinheiro ia acabar nas máquinas de jogo, mas mesmo assim não me pareceu uma má conta para um dia de trabalho.
Segui pela Strip abaixo até chegar ao meu hotel. Subi ao décimo sexto andar e fui para o meu quarto. Estava cansado e meio empoeirado, a única coisa que me apetecia naquela altura era encher a banheira com água e enfiar-me lá dentro antes de voltar a sair. Deixei a banheira a encher e fui despejar a mochila na segunda cama para a poder organizar mais tarde. Gostei de ver as memórias da viagem - em forma de postal ou lembrança - espalhadas dessa forma, fazendo-me lembrar quão bons momentos passei ao longo das duas semanas que tinham passado. Uma vez cheia, não perdi tempo a entrar na banheira e sentar-me relaxadamente a descansar enquanto reflectia sobre a viagem. Estava cansado, mas sentia-me bem. Sentia que aquele banho de imersão era como uma cereja no topo do bolo, depois de quase duas semanas intensas, e não podia pedir mais nada naquele momento. Fiquei ali até me fartar e, depois de me secar e vestir, segui para baixo. Antes de ir jogar queria comer qualquer coisa, o almoço já tinha sido há muito tempo e a fome começava a acusar. Saí do hotel e andei até encontrar uma pizzaria numa galeria que também tinha um restaurante chinês. Ambos os restaurantes tinham apenas um balcão e inúmeras mesas espalhadas à sua frente. Pedi duas fatias de pizza e sentei-me numa dessas mesas a jantar. O sítio estava cheio, mas não deixei que isso me impedisse de saborear a comida o máximo que pude.
O plano para essa noite era simples: andar ali pelas imediações do hotel a jogar em vários casinos até rebentar o orçamento que tinha feito para tal. Andei de casino em casino a jogar em slot machines e video poker até gastar o dinheiro que tinha e depois disso decidi voltar para o hotel, uma vez que se fazia tarde e eu queria acordar cedo na manhã seguinte para ver o Benfica contra o Manchester United, que iam jogar para a fase de grupos da Liga dos Campeões (às dez da manhã locais). Como ainda não sabia onde ia ver o jogo, queria sair do hotel relativamente cedo para não correr riscos desnecessários. Antes de me deitar, decidi pôr os ténis na varanda, para arejarem - merecidamente - de 13 dias intensos e de muitos quilómetros percorridos. Fiquei um pouco na varanda a contemplar a vista, que não era deslumbrante, e depois disso fui-me deitar. O meu estado de cansaço era notório e não foi preciso muito tempo no conforto daquela cama até que tivesse adormecido à espera que um novo dia me acordasse.
DIA 14 - 14/09/2011 (LAS VEGAS)
Acordei sem despertador, não tão cedo como queria. Ouvi um barulho que me era familiar, igual ao das gotas de água da chuva quando vão de encontro à janela numa manhã de Inverno, mas deixei-me estar quieto sem pensar duas vezes no assunto - não há nada como estar debaixo do quente do edredão enquanto se ouve a chuva a cair lá fora. Não foi até minutos depois que me lembrei, repentinamente, que tinha deixado os ténis na varanda. Saí da cama rapidamente e corri para a janela, abrindo a cortina para me deparar com uma autêntica carga de água a cair lá fora. Lembrei-me daquilo que o Mike tinha dito no dia anterior, sobre apenas chover 3% do ano em Las Vegas, e questionava-me sobre o porquê de ter que ter acontecido exactamente na altura em que eu lá tinha estado. Abri a porta e trouxe os ténis para dentro. Dizer que estavam ensopados era ser muito generoso. Levei-os rapidamente para a casa de banho onde os tentei espremer o máximo possível na banheira. Visto que isso não estava a provocar resultados evidentes, decidi tentar secá-los com o secador de cabelo da casa de banho, algo que também não me pareceu ter apresentado grandes melhorias ao estado lastimável em que eles estavam. Conformado com o facto de não os poder usar nesse dia, deixei-os na banheira a secar e optei por calçar o par de ténis suplente que tinha trazido. Ao contrário dos que tinha posto na varanda na noite anterior, estes não eram feitos especificamente para andar e certamente que não me iam deixar andar distâncias tão longas. Felizmente neste caso, este era (teoricamente falando) o último dia da viagem e, ainda que tivesse planeado andar bastante, não era nada que se comparasse a outros dias.
Arranjei-me rapidamente e desci, perguntando na recepção se por acaso não teriam uma lavandaria no hotel onde eu pudesse enfiar os ténis numa máquina de secar roupa. A senhora, visivelmente triste com os contornos da história que lhe tinha acabado de contar, disse que infelizmente não tinham, que mandavam a roupa para fora e que ela era entregue no dia seguinte. Agradeci na mesma mas disse que isso não me serviria de muito, até porque não acreditava que eles tivessem um serviço específico para ténis encharcados. Não era o fim do mundo e eu não ia deixar de fazer nada do que tinha planeado por causa disso. Saí cá para fora e segui em direcção ao Venetian, onde - tinha lido algures - ia encontrar algo parecido a uma casa de apostas de jogo onde os ecrãs certamente iriam mostrar o desafio. Já não chovia, embora as nuvens cinzentas fizessem prever que ainda aí viria mais chuva. O Venetian, como o próprio nome indica, é um hotel tematicamente veneziano. Desde a arquitectura, passando pelas estátuas e pelas fontes, é como andar numa versão pequena de Veneza - incluindo os famosos canais e as gôndolas com seus gondoleiros trajados a rigor. Entrei pela galeria comercial e fiquei - quase imediatamente - embasbacado com o que via: por dentro, a galeria estava construída de forma a recriar a cidade de Veneza, com as fachadas das lojas construídas como sendo casas e os corredores como sendo ruas. Para complementar isto, o tecto dava a ilusão de ser o céu - mudando entre noite e dia em períodos espaçados de tempo. Estava maravilhado.
Como o tempo começava a apertar, não pude perder ali muito tempo e fui directamente ao casino onde procurei pela tal casa de apostas onde poderia ver o jogo. Lá chegado, depois de atravessar uma outra galeria que se destacava pelas fontes em cascata e jardins lindos, perguntei a um senhor se me poderia ajudar a encontrar o que procurava. Ele disse-me que ali não ia encontrar o que queria, mas que se fosse até ao Palazzo e procurasse o Lagasse's Stadium ia certamente encontrar aquilo que procurava. Agradeci e não perdi tempo em pôr-me a caminho. Encontrei o sítio com alguma dificuldade, uma vez que ficava na cave do hotel e os hotéis em Las Vegas são tudo menos pequenos! O sítio era bastante diferente daquilo que eu tinha imaginado... Era um bar com sofás, decorado sofisticadamente e com ecrãs por todo o lado. Folguei em ver que os três ecrãs por cima do balcão iam todos mostrar o jogo e decidi sentar-me, pronto para pedir alguma coisa para comer. O tipo que trabalhava no bar era simpático e eu engracei com ele logo desde o início. A zona para se apostar ficava por trás do bar mas eu não fui lá, uma vez que não tenho o hábito de apostar em resultados de jogos. Mandei vir um prato de hummus com pão e uma Coca-Cola que, pensei eu, deveria servir de acompanhamento para o jogo todo. Durante o jogo fui conversando com ele sobre os mais variados assuntos mas focando principalmente no desporto - tanto americano como europeu. Ele, engraçadamente, mencionou que o futebol teria muito mais piada e interesse se a baliza tivesse mais um metro para cada lado e eu, claro, não pude deixar de me rir. Deviam estar cerca de quatro ou cinco pessoas ao balcão a ver o jogo e, a meio da segunda parte, um tipo que estava sentado ao meu lado meteu conversa. Ele era de Los Angeles e estava em Las Vegas com o pai por um motivo que não percebi totalmente qual era. Estivemos a falar imenso de futebol e principalmente do Manchester United. Ele falou-me que o sonho dele era ir a Old Trafford e que o futebol nos Estados Unidos ainda tinha muito caminho a percorrer até chegar ao nível do europeu. Queixou-se do facto de nos Estados Unidos a liga ter um formato ridículo, do facto de ser tudo patrocinado (os pénaltis têm o nome das marcas que os patrocinam) e, principalmente, das claques e os adeptos serem, na sua grande maioria, uma autêntica anedota e cópia barata dos que se passa na Europa. Ele era adepto dos LA Galaxy, por ser a equipa da cidade dele e por ter uma série de amigos que jogavam na equipa principal. Trocámos contacto para, dizia ele, no caso de eu alguma vez voltar a Los Angeles lhe dizer alguma coisa para ele me levar a ver os Galaxy. No fim do jogo pedi a conta, que o dia ainda vinha longo, e dei uma gorjeta amigável ao empregado. Despedi-me do meu novo amigo e voltei para a rua.
Dei um passeio por aquela zona da Strip, passando por uma série de hotéis e casinos que queria ver, nem que fosse por fora. Já tinha seleccionado de antemão quais eram os casinos que não queria perder, de forma a evitar andar de um lado para o outro desnecessariamente. Afinal de contas, só ia ter um dia em Las Vegas, uma vez que o meu voo para Seattle saía de Las Vegas cedo na manhã seguinte. O primeiro hotel por onde passei foi o Wynn, que era arquitectonicamente elegante e tinha um jardim lindíssimo cá fora. Dava para ver uma Trump Tower dourada mais ao fundo, seguida da torre do Stratosphere que tanto me assustou (ou salvou?!) na primeira noite. Atravessei para o outro lado da estrada e fui em direcção ao Treasure Island, que é tematicamente centrado numa ilha do tesouro, com barcos de piratas a decorar a parte de fora do hotel. Entrei no casino para jogar uns trocos e segui viagem. O meu próximo destino, de acordo com a minha lista, eram as galerias comerciais do Caesars Palace - algo que eu não poderia perder por nada! Adequadamente chamadas The Forum, as galerias são um espaço enorme completamente decorado como sendo Roma antiga. Quando digo completamente digo desde pinturas maravilhosas no tecto a estátuas do mais clássico possível a adornar todo o espaço. Isto, claro, sem esquecer as inúmeras fontes - muitas delas réplicas das originais. Era, mais ou menos, como passear em Itália na altura do renascimento. Estava maravilhado. Muito como o Venetian, também aqui a galeria tinha sido construída de forma a dar ilusão de ser uma cidade, com as fachadas das lojas a recriarem o cenário urbano da época e o tecto a dar uma ilusão constante de noite e dia. Tudo lá dentro era grande e tudo era, também, grandemente maravilhoso. Desci até ao casino, onde tinha decidido gastar algum dinheiro uma vez que uma vinda a Las Vegas não fica completa sem se jogar no Caesars Palace. A realidade, no entanto, é que os casinos por dentro diferem muito pouco uns dos outros. Claro que as decorações são diferentes, mas no fundo, acaba por ser sempre mais do mesmo.
Continuei em frente, chegando rapidamente ao Paris e suas reproduções incríveis, tanto da Torre Eiffel como do Arco do Triunfo. Todo o hotel, ao seu bom estilo parisiense, era maravilhoso por fora, replicando todos os detalhes que tornam Paris uma cidade especial. Mais à frente, depois de ter passado o Bellagio, o Planet Hollywood e uma série de lojas de roupa de alta costura num complexo arquitectonicamente peculiar, segui em direcção ao Monte Carlo, onde parei para jogar. A impressão que tinha de Las Vegas (ou da Strip, mais correctamente dizendo) nesta altura era de que tudo era grande e de que não havia distâncias curtas entre sítios. Os hotéis são todos gigantes, no sentido literal da palavra, e andar de uns para os outros, parando para tirar fotografias e deixar umas moedas nas máquinas de jogo é uma tarefa que consome mais tempo do que aquilo que possa originalmente parecer. Segui em direcção ao New York, New York que ficava um pouco mais abaixo na Strip. Pelo caminho passei pela loja da Coca-Cola (com uma fachada que replicava a garrafa icónica em formato gigante), a loja dos M&M's e o Hard Rock Café, figurando os dois primeiros na minha lista de sítios a visitar - algo que tencionava fazer mais tarde nesse dia, quando fizesse o caminho de volta pelo outro lado da avenida.
A entrada do New York, New York tem uma espécie de réplica da ponte de Brooklyn, estando o resto do edifício decorado como se fosse um bairro nova-iorquino com arranha-céus, alguns prédios baixos típicos e até uma réplica da Estátua da Liberdade. Para além disso tem, por cima do primeiro nível do telhado, uma montanha-russa. O casino era engraçado, lembrando Nova Iorque durante a noite com os seus néons, pizzarias e bares de jazz. Subi até ao salão de jogos onde decidi jogar numas máquinas que têm um amontoado de moedas e cujo objectivo é, através de uma ranhura, enfiar mais moedas (de 2 cêntimos...) para fazer com que as que lá estão caiam e nos façam acumular pontos que podem ser trocados por prémios. Perdi algum tempo a jogar nessas máquinas e, uma vez farto, fui trocar os pontos que tinha ganho por um prémio. Depois de muito ponderar (a oferta não era muito variada para o número de pontos que tinha) optei por dois ímanes de frigorífico do Mickey e da Minnie e um chupa-chupa. Foi o melhor que consegui desencantar dadas as circunstâncias, sempre era melhor que nada! Daí fui até à entrada da montanha-russa perguntar quanto custava cada volta. A senhora disse-me que eram $14 e eu, depois de pensar uns segundos no assunto, decidi que era dinheiro a mais para uma volta numa montanha-russa. Voltei a descer até à entrada ainda a matutar sobre o assunto e, chegando à rua, parei e voltei para trás. A minha linha de pensamento foi simples: só vou viver uma vez e se não aproveitar esta vida não vou ter outra para fazer as coisas que não tive hipótese de fazer enquanto pude. Vendo as coisas dessa perspectiva, o preço até nem era assim tão alto para uns três minutos de diversão.
Voltei lá acima, comprei o meu bilhete e fui deixar tudo o que me pudesse cair dos bolsos num dos cacifos que ficavam à entrada da zona de embarque para a montanha-russa. Não esperei muito tempo até entrar. O trajecto começa com uma subida que é assustadoramente complementada pelo nosso reflexo num dos edifícios do hotel, que é totalmente espelhado. A descida que se seguiu foi igualmente assustadora, não tanto por causa do reflexo, mas sim pela inclinação. O resto da montanha-russa foi não desapontou, com curvas e contracurvas suficientes para me deixarem a chamar-lhe nomes à medida que íamos avançando. Pecou um pouco pelo curto tempo que demora, mas não estava aborrecido - tinha sido uma óptima experiência e uma que voltaria a repetir se a hipótese surgisse. Desci, contente, e continuei o meu caminho, desta feita em direcção ao Luxor, que queria fotografar por ter a forma de uma pirâmide (ainda que espelhada com vidro escuro). A temática era, obviamente, o Egipto e as estátuas e réplicas de deuses egípcios cá fora não deixava mentir. Depois de passar o Mandalay Bay decidi, com alguma relutância inicial, seguir em frente em direcção ao sinal de Las Vegas (aquele em forma de losango que diz "Welcome to Fabulous Las Vegas"). São as pequenas coisas que me deixam excitado sobre viajar e eu não me queria ir embora sem ver este ícone da cidade. A relutância deveu-se ao facto de já estar um pouco cansado (como um par de ténis consegue fazer toda a diferença) e ao prospecto de ter que voltar a fazer o caminho todo para trás.
A partir do Mandalay Bay a vista não diferia muito daquela que eu tinha experienciado na minha primeira noite em Las Vegas, quando me deixei ficar dentro do autocarro até já ser tarde demais. Fui passando por vários motéis e algumas das muito famosas capelas para casamentos rápidos. Demorei cerca de vinte minutos a lá chegar, talvez um pouco menos. Passei por um descampado de onde dava para ver o aeroporto ao fundo, com uma montanha a complementar a paisagem. Tal como Phoenix, Las Vegas fica também no meio do deserto. Cheguei ao sinal ao mesmo tempo que um grupo de turistas que estava a sair do autocarro. Apressei-me um pouco para conseguir tirar as fotos que queria antes que eles ocupassem o espaço. Quando cheguei mais perto reparei que estava, naquele momento, a decorrer uma cerimónia que envolvia dois noivos a serem casados por um padre vestido de Elvis - completo com microfone e coluna. Não deve ser todos os dias que se vê um cenário semelhante (se calhar em Las Vegas é...!) por isso fiquei lá um pouco a ver a cerimónia. Segui pouco depois de volta para a parte interessante da Strip, onde aproveitei para ir até ao casino da MGM ver os leopardos que eles têm lá dentro. Quando cheguei, a audiência que circundava a jaula (de vidro) era mais que muita, de modo que decidi não ficar lá muito tempo. Tirei uma ou duas fotos e vim-me embora. Vendo bem, uns quantos leopardos dentro de uma caixa de vidro não são assim tão excitantes... pelo menos para quem já tenha ido a um zoo.
Depois disso, a minha primeira paragem foi na loja dos M&M's que, tendo eu ido já à de Nova Iorque e à de Londres, não esperava que me fosse surpreender. Dei uma volta lá por dentro e comprei algumas prendas para trazer de volta mas, no geral, não estava grandemente surpreendido. Seguiu-se a loja que mais tinha curiosidade em ver e onde sabia que ia querer gastar algum dinheiro: a da Coca-Cola! Mal entrei fiquei louco com a quantidade coisas que havia para venda. Desde copos em miniatura até t-shirts, lápis, enfeites de árvore de Natal... tudo! Tudo o que fosse possível criar e vender com um logotipo da Coca-Cola, eles tinham pensado nisso e estava lá à venda. Estava absolutamente deliciado e, até certo ponto, a fazer contas de cabeça para ver quanto dinheiro queria gastar ali. Subi ao primeiro andar onde acabei por me perder ainda mais, uma vez que era onde estavam todos os artigos menos comerciais. Desde panos de cozinha a bandejas, aventais, relógios, réplicas de sinais antigos... tudo! Demorei algum tempo a escolher o que queria trazer comigo mas não o dei por mal empregue. Enquanto procurava parei no pequeno bar que eles tinham lá em cima e pedi uma Coca-Cola de baunilha, claro! Pedi uma de máquina, uma vez que já sabia que não ia ter hipótese de o voltar a fazer por algum tempo, já que não está disponível na Europa a não ser em lojas que a importam especificamente (...para a vender a um preço exorbitante). Paguei e saí, contente com as minhas compras. Não fiquei muito tempo na rua, uma vez que mesmo ao lado havia uma loja de souvenirs, onde comprei o resto das lembranças que me faltavam. Perdi aí bastante tempo a escolher o que levar entre milhares de bugigangas de todas as formas e feitios.
A caminho do hotel, onde fazia tenção de deixar as compras antes de seguir para a parte antiga da cidade, parei em frente ao Bellagio para ver o espectáculo luminoso que eles têm com água. É um espectáculo bonito e fiquei contente de ter passado lá na hora em que ele aconteceu. Havia mais uma série de espectáculos do género a acontecer a horas certas mas não tive muita paciência para os andar a seguir. Chegado ao Imperial Palace, subi rapidamente ao meu quarto para deixar o saco e voltei a descer. A ideia era ir até à parte antiga de Las Vegas, que tinha sido, em tempos, o núcleo principal de casinos - muito antes da Strip ser sequer criada. Tinha lido que havia um espectaculo gratuito bonito de se ver e, uma vez que lá estava, não me queria ir embora sem poder vir a opinar sobre o assunto. Apanhei um autocarro cheiíssimo minutos depois que, lentamente, lá acabou por me levar até onde queria ir. A tal parte antiga da cidade não ficava propriamente perto do centro, sendo até algo deslocada. A viagem deve ter demorado qualquer coisa como quarenta minutos a uma hora, a passo de caracol. Saí na paragem certa e não demorei a encontrar o que procurava. O espectáculo funcionava a horas certas e eu tinha chegado a tempo de apanhar o último do dia. Todo o sítio parecia respirar um ambiente mais vintage e parado no tempo que a Strip, onde a modernidade reina. Até certo ponto, parece que é outra cidade. Os casinos estão cobertos de luzes do chão ao tecto, as ruas são pequenas e as pessoas menos histéricas. Aquilo que eu queria ver era um espectáculo de vídeo apresentado naquele que, diziam eles, é o maior ecrã do mundo. O ecrã era abaulado e cobria a rua toda, apoiado numa estrutura de pilares que o erguia a muitos metros do chão, fazendo assim de tecto. A rua ainda era comprida, fazendo-me acreditar na promessa feita por eles.
Como ainda faltavam alguns minutos para o próximo espectáculo fui dar uma volta por lá para tirar aquelas que seriam as últimas fotos da viagem. A meio da rua estava a haver um concerto de uma banda de tributo aos Doors e, sendo eu bastante fã da banda (original), não pude deixar de ficar lá um pouco a apreciar o concerto. Eles tocavam bem e o vocalista até tinha boa voz, tentando imitar o Jim Morrison nas suas poses e jeitos. Achei graça às duas músicas que ouvi deles antes do fim do concerto e fui dar mais uma volta até à hora do espectáculo começar. A temática era a música American Pie e toda a animação girava em torno disso. É um espectáculo digno de se ver embora tenha que confessar que a posição para o fazer não seja a mais confortável, com o pescoço inclinado para trás durante quase dez minutos; algumas pessoas com mais bom senso e menos preocupações higiénicas que eu deitaram-se no chão, ficando assim com uma muito melhor percepção daquilo que estava a acontecer. Uma vez findo o espectáculo fui procurar o autocarro de regresso, uma vez que já era tarde e eu não só ainda não tinha jantado, como ainda queria ir empatar uns trocos nas máquinas antes de me ir deitar.
Como já tinha visto no mapa, antes de lá chegar, sabia que o autocarro ficava numa rua paralela àquela em que eu tinha saído aquando da minha chegada. Depois de procurar um pouco lá encontrei o sítio certo. A fila para apanhar o autocarro ficou cresceu muito rapidamente mas, felizmente, na altura em que lá cheguei ainda estava no começo. A viagem, ainda que lenta, foi um bocado mais rápida que a de ida e acabei por sair um par de ruas antes da minha. Como estava com fome, o meu objectivo era, primeiramente, comer alguma coisa. Fui até ao sítio onde tinha comido as duas fatias de pizza no dia anterior mas quando lá cheguei, já estava fechado. Andei um pouco para trás e para a frente à procura de um sítio aberto que tivesse comida vegetariana e acabei por encontrar um Subway aberto dentro de um dos casinos, numa zona de restauração. Não hesitei. Depois disso, cansado e sem ter ainda a mochila arrumada para a viagem, decidi ir directamente para o quarto e deixar o jogo para uma outra visita. O hotel não ficava muito longe de onde estava e pus-me lá num instante. Perdi algum tempo a arrumar a mochila, separando aquilo que não ia querer levar (maioritariamente lixo, panfletos e mapas) do resto das coisas. Arrumei tudo o melhor que pude e deitei-me com um sabor de satisfação na boca - a missão tinha sido cumprida.
DIA 15 - 15/09/2011 (LAS VEGAS/SEATTLE/LONDRES)
O despertador tocou por volta das sete horas da manhã. O voo para Seattle, de onde voaria para Londres via Chicago, estava marcado para as nove e dez da manhã e eu queria chegar ao aeroporto com alguma antecedência; de todos os voos, este era aquele que eu não podia sequer pensar em perder. Tomei um duche e acabei de arrumar a mochila. Aproveitei o saco que tinha trazido da loja da Coca-Cola para colocar algumas coisas mais pesadas e alguns chocolates que tinha comprado no dia anterior. Para chegar ao aeroporto podia apanhar o autocarro ou ir de táxi. A minha ideia original era ir de autocarro mas antes de sair para a rua perguntei na recepção quanto me custaria uma viagem até ao aeroporto. Como não era assim muito caro (menos de $20) e eu ainda tinha algum dinheiro na carteira decidi ir de táxi. Porque não? Era merecido.
Na entrada do hotel havia uma fila exclusivamente para táxis de modo que apenas tive que entrar no primeiro que lá estava. O condutor era simpático e fomos conversando sobre nada específico durante a curta viagem. Não demorámos mais de dez minutos a lá chegar. Ele deixou-me junto ao meu terminal e eu agradeci-lhe, depois de pagar. Fiz o check-in rapidamente, pois ainda queria comer qualquer coisa antes de embarcar. Passei a segurança sem problemas e parei para comer numa cadeia de diners chamada Ruby's. Antes de entrar passei os olhos pelo menu para ver se havia alguma coisa que me agradasse àquela hora da manhã e encontrei uma sandes de ovo mexido que me pareceu prometedora. O restaurante não era muito grande, todo em tons de vermelho e branco, e estava relativamente cheio, como seria de esperar àquela hora da manhã. Fui para a fila onde ia fazer o pedido e depois fui-me sentar numa mesa sozinho. As pessoas à minha volta comiam com a pressa característica de um restaurante de aeroporto. O meu pedido demorou a chegar, deixando-me algo relutante sobre se deveria comer ali ou pedir para embrulhar. As empregadas pareciam baratas tontas, constantemente de um lado para o outro a limpar mesas e a entregar pedidos. Optei por comer lá, uma vez que a porta de embarque ficava ali perto e certamente que não me ia atrasar de forma a perder o avião. A sandes estava bastante quente mas não deixou de me saber bem; comi-a em meia dúzia de dentadas e fui-me embora.
Cheguei a Seattle cerca de três horas depois, tendo aproveitado para dormir durante grande parte do voo. Lá chegado, sabia que ainda ia ter que esperar um par de horas até partir para Chicago, onde iria apanhar o voo de ligação para Londres. Aproveitei para dar uma volta pela zona comercial do terminal e ver umas montras para me distrair. O tempo não estava a passar muito rapidamente e eu ia ter que o esticar ao máximo desta forma. Depois de ver, muito possivelmente, todas as montras do terminal, fui em busca de um sítio para comer. Havia várias opções e, sendo que estava na hora de almoço, todas elas apresentavam uma considerável fila que saía pela porta fora. A minha escolha recaiu para um restaurante de comida rápida mexicana que tinha bom aspecto, ainda que a fila não fosse nada curta. Esperei um pouco na fila até ser atendido e depois de despachado tive que esperar mais um pouco até encontrar uma mesa vazia, no meio de dezenas de mesas que estavam ocupadas. Eventualmente lá houve alguém que se levantou e eu pude ocupar a mesa. Depois de comer um delicioso burrito fiquei lá sentado a aproveitar a boa velocidade da internet gratuita do terminal - como é habitual em todos os terminais nos Estados Unidos, bem ao contrário dos europeus! Aproveitei também para ver algumas das fotos que tinha tirado durante a viagem até a hora de fazer o check-in se aproximar.
O voo entre Seattle e Chicago demorou cerca de quatro horas e não custou muito a fazer, embora o avião não fosse nada de especial e estivesse longe do standard a que a British Airways me habituou - muito provavelmente por ser um avião da American Airlines! A paragem em Chicago não ia ser muito longa, embora me tivesse dado tempo suficiente para ir à casa de banho e voltar, tendo ainda que esperar uns dez ou quinze minutos até ao embarque. Mal entrei no avião, senti um calor desconfortável dentro da cabine. O calor continuou a intensificar-se até que uma das hospedeiras de voo, disse através do intercomunicador, que o ar condicionado estava com um problema mas que eles o estavam a reparar. Temia um pouco pelos chocolates que trazia no saco (estava mesmo muito quente dentro da cabine!) e chamei a hospedeira para lhe perguntar se ia demorar muito até voltarmos a ter ar condicionado, uma vez que não queria que os chocolates se estragassem. Ela ofereceu-se, simpaticamente, para os pôr no frigorífico até o ar condicionado estar arranjado e eu não hesitei em aceitar a oferta. Por causa desse pormenor acabámos por sair de Seattle com um atraso significativo. A meio da viagem, antes do jantar ser servido, escolhi um filme da selecção disponível para ajudar a passar o tempo. Ao contrário da British Airways (que tem, literalmente, dezenas de filmes disponíveis) aqui só tinha cerca de dez. Optei pelo X-Men: First Class, que nunca tinha visto e tinha quase a certeza que não ia gostar. Só precisava de algo que me distraísse e esse filme ia cumprir o propósito perfeitamente.
Cheguei a Londres já no dia 16 pelas onze horas da manhã, depois de ter passado o resto do voo ora a ler, ora a dormir. A viagem foi calma o suficiente para me deixar pensar nas férias que tinha tido. Chegava agora ao fim mais uma aventura, aquela que tinha sido a maior que tinha vivido até então. No total, tinha visitado onze cidades em catorze dias, cumprindo o trajecto que me tinha proposto percorrer depois de meses de planeamento. Tinha vivido experiências que doutra forma certamente não teria vivido e o meu pensamento estava vidrado apenas numa coisa: nas próximas férias. Na louca ideia de ir ver o mundo. De viajar por uma quantidade de tempo indeterminado, tempo suficiente para não dar sequer para lhes chamar férias. Bastou-me sair do avião e sentir a brisa fresca da cidade de Londres, para perceber que estava de volta. Sorri ao aperceber-me de que as férias tinham acabado e de que daí a um dia ia voltar à rotina de passar oito horas em frente a um ecrã, num escritório, a trabalhar para alguém com quem não me identifico. A realidade era essa, mas o efeito que estava a ter em mim não era negativo, pelo contrário. Sorri de novo. A realidade era que naquele momento eu era um homem feliz e realizado. Um homem contente, que olhava para trás e pensava na quantidade de pessoas com quem se tinha cruzado, nas fotos que tinha tirado para mais tarde recordar, nas experiências que tinha vivido (das perigosas às puramente relaxantes), nas paisagens que tinha visto e, mais importantemente que o resto, nas lições pessoais que esta viagem lhe tinha ensinado. As histórias que acompanhavam a aventura não me deixavam mentir - a missão tinha sido cumprida. Nesse momento, ainda de sorriso na cara e pronto para voltar à rotina que é a vida no escritório, nasceu a semente que certamente ia dar fruto a mais uma viagem, a mais uma aventura; algo que me fizesse sentir vivo porque, no fundo, não existe melhor sensação que essa.
A primeira coisa em que reparei, para além da vastidão que o Canyon nos apresenta, foi que não havia qualquer tipo de protecção que nos impedisse de cair lá para baixo. Fazia assim mais sentido aquilo que a senhora tinha dito no autocarro sobre as quedas. O miradouro ainda era bastante largo, localizado num dos pontos (acessíveis de carro) mais altos do Canyon e oferecia uma belíssima vista sobre ele. Felizmente não chovia, ainda que o céu continuasse tão medonho como na última paragem que tínhamos feito. Apressei-me até à melhor zona do miradouro e deixei-me absorver um pouco pela vista. Tudo aquilo que já tinha lido e visto sobre o Grand Canyon não fazia o mínimo jus ao que eu estava a presenciar diante de mim - o Grand Canyon engoliu-me inteiro e eu não conseguia acreditar que ali estava. É uma beleza difícil de explicar e que tem que ser vista para ser sentida. Em algumas partes do Canyon, a altura chega a ser de quase dois quilómetros e é difícil não sentir quão pequenos somos em relação ao mundo depois de experienciar tal grandeza. Fiquei lá mais algum tempo a observar e a absorver a vista de vários pontos no miradouro e aproveitei para tirar o máximo de fotografias possível - isto era algo que queria, definitivamente, recordar mais tarde.
O Eagle Point, chamado assim por ter numa das rochas uma forma que se assemelha ao formato de uma águia em voo (sagrada para os Hualapai), é também o sítio onde está localizado o Skywalk, uma estrutura com um chão de vidro (ou um qualquer outro material transparente) que, numa forma em U que sai para fora da borda do Canyon, deixa as pessoas verem o fundo do Grand Canyon como se estivessem suspensas no ar. Infelizmente, o preço elevado e o facto de não se poder entrar com máquina fotográfica fizeram com que o meu interesse em lá ir ficasse reduzido a muito pouco ou nenhum. Junto ao miradouro havia também uma espécie de restaurante, mais propriamente dois contentores transformados em cozinha, que serviam comida. A refeição estava incluída no preço da tour por isso só tive que me dirigir ao guichet e pedir a opção vegetariana. Depois de me darem o recibo tive que ir levantar a comida a outro contentor, que ficava uns metros ao lado. Esperei um pouco pela comida, que ficou longe de me impressionar - nada que eu não estivesse à espera. Era uma sanduíche que não primava pela qualidade da confecção, umas batatas fritas de pacote, uma peça de fruta e um refrigerante. Como estava com alguma fome e não tinha grandes expectativas em relação ao almoço, considerei-me contente por ter direito a uma opção vegetariana e fui-me sentar a comer. Havia muitas mesas em frente aos contentores e, como não chovia, a grande maioria estava cheia.
Depois de comer e de dar uma volta numa pequena construção dos Hualapai que, diga-se, não era assim muito interessante, fui-me colocar na fila para o shuttle, que nesta altura ainda não era muito grande. Enquanto esperava, os meus níveis de tolerância para com turistas barulhentos, piadas más, conversas sobre nada e exibição gratuita de vários tipos de anormalidade ficaram reduzidos a zero e tive que pôr os headphones até o shuttle chegar - cerca de quinze minutos depois. A viagem até ao Guano Point não demorou muito tempo mas, de novo, justificou totalmente a viagem de autocarro. Ao contrário do Eagle Point, que apenas apresenta a vista numa direcção, o Guano Point apresenta uma vista quase disempedida a 360º, tendo inclusive um pequeno monte que se pode subir para se ter uma vista difícil de igualar. A vista deste miradouro é melhor por ser mais abrangente e, de certa forma, profunda que a outra. Perdi aqui bastante tempo, por haver mais espaço e possibilidade de estar sozinho sem histerismos à minha volta. Parei junto a uma das melhores vistas e absorvi-a o máximo que pude durante vários minutos. O Grand Canyon estava-me a fazer sentir pequeno como ser humano e a fazer-me reflectir sobre a minha posição na vida. Várias questões assaltaram a minha mente naquele momento, tendo a mais importante sido aquela em que me questionei sobre se passar a vida num escritório a trabalhar das nove à cinco era o que eu queria fazer enquanto o mundo me reservava surpresas destas ao virar da esquina. Naquele momento eu estava a viver e, mais que isso, estava-me a encontrar a mim mesmo.
Depois de subir e descer do topo do monte, que ainda era ligeiramente alto e de acesso rudimentar, voltei calmamente para trás, até à paragem do shuttle. Sentia-me cheio por dentro e inspirado até mais não. Não tinha dúvidas de que esta tinha sido uma das melhores experiências da minha vida e, certamente, uma a repetir um dia mais tarde - eventualmente de forma mais profunda. O shuttle seguiu para o único ponto que me faltava: o rancho. Ainda tinha algum tempo (embora não fosse muito) e não me queria ir embora sem ver tudo aquilo a que tinha direito. Chegámos lá pouco depois e a minha primeira impressão foi de desapontamento. Como já estava quase na hora do fecho, não havia muitas coisas abertas no rancho mas, mesmo assim, o que vi não foi nada que me impressionasse. Basicamente era um rancho recriado ao estilo de um western, com uma prisão, uma forca, uma casa de gado, um saloon, etc...! Pareceu-me tudo um bocado forçado e "para turista ver". Dei uma volta rápida dentro do rancho e voltei cá para fora, onde fiquei a ver a paisagem do Canyon à distância. De onde estava só conseguia ver o topo das rochas lá ao fundo na planície. Enconstei-me lá numa cerca à espera que o próximo shuttle viesse e, quando o fez, fui o primeiro a entrar. A viagem até ao centro de visitas não foi muito comprida e, uma vez lá chegado, dei outra curta volta lá dentro, não comprando nada. Estava contente pela experiência e também com o facto de não terem chovido mais que algumas gotas, que não deram sequer para ficar molhado. Depois de levantar um certificado de visita ao Grand Canyon, gentilmente assinado e oferecido pelo chefe da tribo, segui para o autocarro, onde me sentei à espera que partíssemos. Não tinha sido o primeiro a chegar mas ainda ia ter que esperar cerca de meia hora até que o autocarro enchesse completamente e seguíssemos.
O caminho de regresso foi muito semelhante ao anterior, salvo a paragem para trocar de autocarro que, desta feita, nos deu algum tempo para ir ver as Joshua Trees - um tipo de árvore peculiar muito característico daquela zona. A partir daí, de novo com o Mike, a viagem fez-se lindamente, ao som das histórias que ele ia contando. Chegámos a Las Vegas já ao anoitecer, depois de um dia que tinha sido bastante comprido. À chegada, o Mike - convenientemente - falou das dificuldades financeiras de Las Vegas e de que nem tudo é como parece, de modo que uma gorjeta (merecida, a meu ver) seria mais que bem vinda. Aproveitou também para dar algumas dicas de jogo que, de certa forma, me vieram a dar jeito mais tarde. Ao contrário do dessa manhã, este autocarro ia-nos deixar directamente aos hotéis, não sendo preciso ir à estação onde tínhamos feito o check-in. Saí num hotel que ficava próximo do meu e dei-lhe uma gorjeta de $5 à saída. Reparei que pessoas que iam à minha frente e atrás de mim lhe deram notas de $10 e $20, o que levou a questionar quão bem pago seria aquele emprego. Claro que, como ele admitiu, muito daquele dinheiro ia acabar nas máquinas de jogo, mas mesmo assim não me pareceu uma má conta para um dia de trabalho.
Segui pela Strip abaixo até chegar ao meu hotel. Subi ao décimo sexto andar e fui para o meu quarto. Estava cansado e meio empoeirado, a única coisa que me apetecia naquela altura era encher a banheira com água e enfiar-me lá dentro antes de voltar a sair. Deixei a banheira a encher e fui despejar a mochila na segunda cama para a poder organizar mais tarde. Gostei de ver as memórias da viagem - em forma de postal ou lembrança - espalhadas dessa forma, fazendo-me lembrar quão bons momentos passei ao longo das duas semanas que tinham passado. Uma vez cheia, não perdi tempo a entrar na banheira e sentar-me relaxadamente a descansar enquanto reflectia sobre a viagem. Estava cansado, mas sentia-me bem. Sentia que aquele banho de imersão era como uma cereja no topo do bolo, depois de quase duas semanas intensas, e não podia pedir mais nada naquele momento. Fiquei ali até me fartar e, depois de me secar e vestir, segui para baixo. Antes de ir jogar queria comer qualquer coisa, o almoço já tinha sido há muito tempo e a fome começava a acusar. Saí do hotel e andei até encontrar uma pizzaria numa galeria que também tinha um restaurante chinês. Ambos os restaurantes tinham apenas um balcão e inúmeras mesas espalhadas à sua frente. Pedi duas fatias de pizza e sentei-me numa dessas mesas a jantar. O sítio estava cheio, mas não deixei que isso me impedisse de saborear a comida o máximo que pude.
O plano para essa noite era simples: andar ali pelas imediações do hotel a jogar em vários casinos até rebentar o orçamento que tinha feito para tal. Andei de casino em casino a jogar em slot machines e video poker até gastar o dinheiro que tinha e depois disso decidi voltar para o hotel, uma vez que se fazia tarde e eu queria acordar cedo na manhã seguinte para ver o Benfica contra o Manchester United, que iam jogar para a fase de grupos da Liga dos Campeões (às dez da manhã locais). Como ainda não sabia onde ia ver o jogo, queria sair do hotel relativamente cedo para não correr riscos desnecessários. Antes de me deitar, decidi pôr os ténis na varanda, para arejarem - merecidamente - de 13 dias intensos e de muitos quilómetros percorridos. Fiquei um pouco na varanda a contemplar a vista, que não era deslumbrante, e depois disso fui-me deitar. O meu estado de cansaço era notório e não foi preciso muito tempo no conforto daquela cama até que tivesse adormecido à espera que um novo dia me acordasse.
DIA 14 - 14/09/2011 (LAS VEGAS)
Acordei sem despertador, não tão cedo como queria. Ouvi um barulho que me era familiar, igual ao das gotas de água da chuva quando vão de encontro à janela numa manhã de Inverno, mas deixei-me estar quieto sem pensar duas vezes no assunto - não há nada como estar debaixo do quente do edredão enquanto se ouve a chuva a cair lá fora. Não foi até minutos depois que me lembrei, repentinamente, que tinha deixado os ténis na varanda. Saí da cama rapidamente e corri para a janela, abrindo a cortina para me deparar com uma autêntica carga de água a cair lá fora. Lembrei-me daquilo que o Mike tinha dito no dia anterior, sobre apenas chover 3% do ano em Las Vegas, e questionava-me sobre o porquê de ter que ter acontecido exactamente na altura em que eu lá tinha estado. Abri a porta e trouxe os ténis para dentro. Dizer que estavam ensopados era ser muito generoso. Levei-os rapidamente para a casa de banho onde os tentei espremer o máximo possível na banheira. Visto que isso não estava a provocar resultados evidentes, decidi tentar secá-los com o secador de cabelo da casa de banho, algo que também não me pareceu ter apresentado grandes melhorias ao estado lastimável em que eles estavam. Conformado com o facto de não os poder usar nesse dia, deixei-os na banheira a secar e optei por calçar o par de ténis suplente que tinha trazido. Ao contrário dos que tinha posto na varanda na noite anterior, estes não eram feitos especificamente para andar e certamente que não me iam deixar andar distâncias tão longas. Felizmente neste caso, este era (teoricamente falando) o último dia da viagem e, ainda que tivesse planeado andar bastante, não era nada que se comparasse a outros dias.
Arranjei-me rapidamente e desci, perguntando na recepção se por acaso não teriam uma lavandaria no hotel onde eu pudesse enfiar os ténis numa máquina de secar roupa. A senhora, visivelmente triste com os contornos da história que lhe tinha acabado de contar, disse que infelizmente não tinham, que mandavam a roupa para fora e que ela era entregue no dia seguinte. Agradeci na mesma mas disse que isso não me serviria de muito, até porque não acreditava que eles tivessem um serviço específico para ténis encharcados. Não era o fim do mundo e eu não ia deixar de fazer nada do que tinha planeado por causa disso. Saí cá para fora e segui em direcção ao Venetian, onde - tinha lido algures - ia encontrar algo parecido a uma casa de apostas de jogo onde os ecrãs certamente iriam mostrar o desafio. Já não chovia, embora as nuvens cinzentas fizessem prever que ainda aí viria mais chuva. O Venetian, como o próprio nome indica, é um hotel tematicamente veneziano. Desde a arquitectura, passando pelas estátuas e pelas fontes, é como andar numa versão pequena de Veneza - incluindo os famosos canais e as gôndolas com seus gondoleiros trajados a rigor. Entrei pela galeria comercial e fiquei - quase imediatamente - embasbacado com o que via: por dentro, a galeria estava construída de forma a recriar a cidade de Veneza, com as fachadas das lojas construídas como sendo casas e os corredores como sendo ruas. Para complementar isto, o tecto dava a ilusão de ser o céu - mudando entre noite e dia em períodos espaçados de tempo. Estava maravilhado.
Como o tempo começava a apertar, não pude perder ali muito tempo e fui directamente ao casino onde procurei pela tal casa de apostas onde poderia ver o jogo. Lá chegado, depois de atravessar uma outra galeria que se destacava pelas fontes em cascata e jardins lindos, perguntei a um senhor se me poderia ajudar a encontrar o que procurava. Ele disse-me que ali não ia encontrar o que queria, mas que se fosse até ao Palazzo e procurasse o Lagasse's Stadium ia certamente encontrar aquilo que procurava. Agradeci e não perdi tempo em pôr-me a caminho. Encontrei o sítio com alguma dificuldade, uma vez que ficava na cave do hotel e os hotéis em Las Vegas são tudo menos pequenos! O sítio era bastante diferente daquilo que eu tinha imaginado... Era um bar com sofás, decorado sofisticadamente e com ecrãs por todo o lado. Folguei em ver que os três ecrãs por cima do balcão iam todos mostrar o jogo e decidi sentar-me, pronto para pedir alguma coisa para comer. O tipo que trabalhava no bar era simpático e eu engracei com ele logo desde o início. A zona para se apostar ficava por trás do bar mas eu não fui lá, uma vez que não tenho o hábito de apostar em resultados de jogos. Mandei vir um prato de hummus com pão e uma Coca-Cola que, pensei eu, deveria servir de acompanhamento para o jogo todo. Durante o jogo fui conversando com ele sobre os mais variados assuntos mas focando principalmente no desporto - tanto americano como europeu. Ele, engraçadamente, mencionou que o futebol teria muito mais piada e interesse se a baliza tivesse mais um metro para cada lado e eu, claro, não pude deixar de me rir. Deviam estar cerca de quatro ou cinco pessoas ao balcão a ver o jogo e, a meio da segunda parte, um tipo que estava sentado ao meu lado meteu conversa. Ele era de Los Angeles e estava em Las Vegas com o pai por um motivo que não percebi totalmente qual era. Estivemos a falar imenso de futebol e principalmente do Manchester United. Ele falou-me que o sonho dele era ir a Old Trafford e que o futebol nos Estados Unidos ainda tinha muito caminho a percorrer até chegar ao nível do europeu. Queixou-se do facto de nos Estados Unidos a liga ter um formato ridículo, do facto de ser tudo patrocinado (os pénaltis têm o nome das marcas que os patrocinam) e, principalmente, das claques e os adeptos serem, na sua grande maioria, uma autêntica anedota e cópia barata dos que se passa na Europa. Ele era adepto dos LA Galaxy, por ser a equipa da cidade dele e por ter uma série de amigos que jogavam na equipa principal. Trocámos contacto para, dizia ele, no caso de eu alguma vez voltar a Los Angeles lhe dizer alguma coisa para ele me levar a ver os Galaxy. No fim do jogo pedi a conta, que o dia ainda vinha longo, e dei uma gorjeta amigável ao empregado. Despedi-me do meu novo amigo e voltei para a rua.
Dei um passeio por aquela zona da Strip, passando por uma série de hotéis e casinos que queria ver, nem que fosse por fora. Já tinha seleccionado de antemão quais eram os casinos que não queria perder, de forma a evitar andar de um lado para o outro desnecessariamente. Afinal de contas, só ia ter um dia em Las Vegas, uma vez que o meu voo para Seattle saía de Las Vegas cedo na manhã seguinte. O primeiro hotel por onde passei foi o Wynn, que era arquitectonicamente elegante e tinha um jardim lindíssimo cá fora. Dava para ver uma Trump Tower dourada mais ao fundo, seguida da torre do Stratosphere que tanto me assustou (ou salvou?!) na primeira noite. Atravessei para o outro lado da estrada e fui em direcção ao Treasure Island, que é tematicamente centrado numa ilha do tesouro, com barcos de piratas a decorar a parte de fora do hotel. Entrei no casino para jogar uns trocos e segui viagem. O meu próximo destino, de acordo com a minha lista, eram as galerias comerciais do Caesars Palace - algo que eu não poderia perder por nada! Adequadamente chamadas The Forum, as galerias são um espaço enorme completamente decorado como sendo Roma antiga. Quando digo completamente digo desde pinturas maravilhosas no tecto a estátuas do mais clássico possível a adornar todo o espaço. Isto, claro, sem esquecer as inúmeras fontes - muitas delas réplicas das originais. Era, mais ou menos, como passear em Itália na altura do renascimento. Estava maravilhado. Muito como o Venetian, também aqui a galeria tinha sido construída de forma a dar ilusão de ser uma cidade, com as fachadas das lojas a recriarem o cenário urbano da época e o tecto a dar uma ilusão constante de noite e dia. Tudo lá dentro era grande e tudo era, também, grandemente maravilhoso. Desci até ao casino, onde tinha decidido gastar algum dinheiro uma vez que uma vinda a Las Vegas não fica completa sem se jogar no Caesars Palace. A realidade, no entanto, é que os casinos por dentro diferem muito pouco uns dos outros. Claro que as decorações são diferentes, mas no fundo, acaba por ser sempre mais do mesmo.
Continuei em frente, chegando rapidamente ao Paris e suas reproduções incríveis, tanto da Torre Eiffel como do Arco do Triunfo. Todo o hotel, ao seu bom estilo parisiense, era maravilhoso por fora, replicando todos os detalhes que tornam Paris uma cidade especial. Mais à frente, depois de ter passado o Bellagio, o Planet Hollywood e uma série de lojas de roupa de alta costura num complexo arquitectonicamente peculiar, segui em direcção ao Monte Carlo, onde parei para jogar. A impressão que tinha de Las Vegas (ou da Strip, mais correctamente dizendo) nesta altura era de que tudo era grande e de que não havia distâncias curtas entre sítios. Os hotéis são todos gigantes, no sentido literal da palavra, e andar de uns para os outros, parando para tirar fotografias e deixar umas moedas nas máquinas de jogo é uma tarefa que consome mais tempo do que aquilo que possa originalmente parecer. Segui em direcção ao New York, New York que ficava um pouco mais abaixo na Strip. Pelo caminho passei pela loja da Coca-Cola (com uma fachada que replicava a garrafa icónica em formato gigante), a loja dos M&M's e o Hard Rock Café, figurando os dois primeiros na minha lista de sítios a visitar - algo que tencionava fazer mais tarde nesse dia, quando fizesse o caminho de volta pelo outro lado da avenida.
Voltei lá acima, comprei o meu bilhete e fui deixar tudo o que me pudesse cair dos bolsos num dos cacifos que ficavam à entrada da zona de embarque para a montanha-russa. Não esperei muito tempo até entrar. O trajecto começa com uma subida que é assustadoramente complementada pelo nosso reflexo num dos edifícios do hotel, que é totalmente espelhado. A descida que se seguiu foi igualmente assustadora, não tanto por causa do reflexo, mas sim pela inclinação. O resto da montanha-russa foi não desapontou, com curvas e contracurvas suficientes para me deixarem a chamar-lhe nomes à medida que íamos avançando. Pecou um pouco pelo curto tempo que demora, mas não estava aborrecido - tinha sido uma óptima experiência e uma que voltaria a repetir se a hipótese surgisse. Desci, contente, e continuei o meu caminho, desta feita em direcção ao Luxor, que queria fotografar por ter a forma de uma pirâmide (ainda que espelhada com vidro escuro). A temática era, obviamente, o Egipto e as estátuas e réplicas de deuses egípcios cá fora não deixava mentir. Depois de passar o Mandalay Bay decidi, com alguma relutância inicial, seguir em frente em direcção ao sinal de Las Vegas (aquele em forma de losango que diz "Welcome to Fabulous Las Vegas"). São as pequenas coisas que me deixam excitado sobre viajar e eu não me queria ir embora sem ver este ícone da cidade. A relutância deveu-se ao facto de já estar um pouco cansado (como um par de ténis consegue fazer toda a diferença) e ao prospecto de ter que voltar a fazer o caminho todo para trás.
A partir do Mandalay Bay a vista não diferia muito daquela que eu tinha experienciado na minha primeira noite em Las Vegas, quando me deixei ficar dentro do autocarro até já ser tarde demais. Fui passando por vários motéis e algumas das muito famosas capelas para casamentos rápidos. Demorei cerca de vinte minutos a lá chegar, talvez um pouco menos. Passei por um descampado de onde dava para ver o aeroporto ao fundo, com uma montanha a complementar a paisagem. Tal como Phoenix, Las Vegas fica também no meio do deserto. Cheguei ao sinal ao mesmo tempo que um grupo de turistas que estava a sair do autocarro. Apressei-me um pouco para conseguir tirar as fotos que queria antes que eles ocupassem o espaço. Quando cheguei mais perto reparei que estava, naquele momento, a decorrer uma cerimónia que envolvia dois noivos a serem casados por um padre vestido de Elvis - completo com microfone e coluna. Não deve ser todos os dias que se vê um cenário semelhante (se calhar em Las Vegas é...!) por isso fiquei lá um pouco a ver a cerimónia. Segui pouco depois de volta para a parte interessante da Strip, onde aproveitei para ir até ao casino da MGM ver os leopardos que eles têm lá dentro. Quando cheguei, a audiência que circundava a jaula (de vidro) era mais que muita, de modo que decidi não ficar lá muito tempo. Tirei uma ou duas fotos e vim-me embora. Vendo bem, uns quantos leopardos dentro de uma caixa de vidro não são assim tão excitantes... pelo menos para quem já tenha ido a um zoo.
Depois disso, a minha primeira paragem foi na loja dos M&M's que, tendo eu ido já à de Nova Iorque e à de Londres, não esperava que me fosse surpreender. Dei uma volta lá por dentro e comprei algumas prendas para trazer de volta mas, no geral, não estava grandemente surpreendido. Seguiu-se a loja que mais tinha curiosidade em ver e onde sabia que ia querer gastar algum dinheiro: a da Coca-Cola! Mal entrei fiquei louco com a quantidade coisas que havia para venda. Desde copos em miniatura até t-shirts, lápis, enfeites de árvore de Natal... tudo! Tudo o que fosse possível criar e vender com um logotipo da Coca-Cola, eles tinham pensado nisso e estava lá à venda. Estava absolutamente deliciado e, até certo ponto, a fazer contas de cabeça para ver quanto dinheiro queria gastar ali. Subi ao primeiro andar onde acabei por me perder ainda mais, uma vez que era onde estavam todos os artigos menos comerciais. Desde panos de cozinha a bandejas, aventais, relógios, réplicas de sinais antigos... tudo! Demorei algum tempo a escolher o que queria trazer comigo mas não o dei por mal empregue. Enquanto procurava parei no pequeno bar que eles tinham lá em cima e pedi uma Coca-Cola de baunilha, claro! Pedi uma de máquina, uma vez que já sabia que não ia ter hipótese de o voltar a fazer por algum tempo, já que não está disponível na Europa a não ser em lojas que a importam especificamente (...para a vender a um preço exorbitante). Paguei e saí, contente com as minhas compras. Não fiquei muito tempo na rua, uma vez que mesmo ao lado havia uma loja de souvenirs, onde comprei o resto das lembranças que me faltavam. Perdi aí bastante tempo a escolher o que levar entre milhares de bugigangas de todas as formas e feitios.
A caminho do hotel, onde fazia tenção de deixar as compras antes de seguir para a parte antiga da cidade, parei em frente ao Bellagio para ver o espectáculo luminoso que eles têm com água. É um espectáculo bonito e fiquei contente de ter passado lá na hora em que ele aconteceu. Havia mais uma série de espectáculos do género a acontecer a horas certas mas não tive muita paciência para os andar a seguir. Chegado ao Imperial Palace, subi rapidamente ao meu quarto para deixar o saco e voltei a descer. A ideia era ir até à parte antiga de Las Vegas, que tinha sido, em tempos, o núcleo principal de casinos - muito antes da Strip ser sequer criada. Tinha lido que havia um espectaculo gratuito bonito de se ver e, uma vez que lá estava, não me queria ir embora sem poder vir a opinar sobre o assunto. Apanhei um autocarro cheiíssimo minutos depois que, lentamente, lá acabou por me levar até onde queria ir. A tal parte antiga da cidade não ficava propriamente perto do centro, sendo até algo deslocada. A viagem deve ter demorado qualquer coisa como quarenta minutos a uma hora, a passo de caracol. Saí na paragem certa e não demorei a encontrar o que procurava. O espectáculo funcionava a horas certas e eu tinha chegado a tempo de apanhar o último do dia. Todo o sítio parecia respirar um ambiente mais vintage e parado no tempo que a Strip, onde a modernidade reina. Até certo ponto, parece que é outra cidade. Os casinos estão cobertos de luzes do chão ao tecto, as ruas são pequenas e as pessoas menos histéricas. Aquilo que eu queria ver era um espectáculo de vídeo apresentado naquele que, diziam eles, é o maior ecrã do mundo. O ecrã era abaulado e cobria a rua toda, apoiado numa estrutura de pilares que o erguia a muitos metros do chão, fazendo assim de tecto. A rua ainda era comprida, fazendo-me acreditar na promessa feita por eles.
Como ainda faltavam alguns minutos para o próximo espectáculo fui dar uma volta por lá para tirar aquelas que seriam as últimas fotos da viagem. A meio da rua estava a haver um concerto de uma banda de tributo aos Doors e, sendo eu bastante fã da banda (original), não pude deixar de ficar lá um pouco a apreciar o concerto. Eles tocavam bem e o vocalista até tinha boa voz, tentando imitar o Jim Morrison nas suas poses e jeitos. Achei graça às duas músicas que ouvi deles antes do fim do concerto e fui dar mais uma volta até à hora do espectáculo começar. A temática era a música American Pie e toda a animação girava em torno disso. É um espectáculo digno de se ver embora tenha que confessar que a posição para o fazer não seja a mais confortável, com o pescoço inclinado para trás durante quase dez minutos; algumas pessoas com mais bom senso e menos preocupações higiénicas que eu deitaram-se no chão, ficando assim com uma muito melhor percepção daquilo que estava a acontecer. Uma vez findo o espectáculo fui procurar o autocarro de regresso, uma vez que já era tarde e eu não só ainda não tinha jantado, como ainda queria ir empatar uns trocos nas máquinas antes de me ir deitar.
Como já tinha visto no mapa, antes de lá chegar, sabia que o autocarro ficava numa rua paralela àquela em que eu tinha saído aquando da minha chegada. Depois de procurar um pouco lá encontrei o sítio certo. A fila para apanhar o autocarro ficou cresceu muito rapidamente mas, felizmente, na altura em que lá cheguei ainda estava no começo. A viagem, ainda que lenta, foi um bocado mais rápida que a de ida e acabei por sair um par de ruas antes da minha. Como estava com fome, o meu objectivo era, primeiramente, comer alguma coisa. Fui até ao sítio onde tinha comido as duas fatias de pizza no dia anterior mas quando lá cheguei, já estava fechado. Andei um pouco para trás e para a frente à procura de um sítio aberto que tivesse comida vegetariana e acabei por encontrar um Subway aberto dentro de um dos casinos, numa zona de restauração. Não hesitei. Depois disso, cansado e sem ter ainda a mochila arrumada para a viagem, decidi ir directamente para o quarto e deixar o jogo para uma outra visita. O hotel não ficava muito longe de onde estava e pus-me lá num instante. Perdi algum tempo a arrumar a mochila, separando aquilo que não ia querer levar (maioritariamente lixo, panfletos e mapas) do resto das coisas. Arrumei tudo o melhor que pude e deitei-me com um sabor de satisfação na boca - a missão tinha sido cumprida.
DIA 15 - 15/09/2011 (LAS VEGAS/SEATTLE/LONDRES)
O despertador tocou por volta das sete horas da manhã. O voo para Seattle, de onde voaria para Londres via Chicago, estava marcado para as nove e dez da manhã e eu queria chegar ao aeroporto com alguma antecedência; de todos os voos, este era aquele que eu não podia sequer pensar em perder. Tomei um duche e acabei de arrumar a mochila. Aproveitei o saco que tinha trazido da loja da Coca-Cola para colocar algumas coisas mais pesadas e alguns chocolates que tinha comprado no dia anterior. Para chegar ao aeroporto podia apanhar o autocarro ou ir de táxi. A minha ideia original era ir de autocarro mas antes de sair para a rua perguntei na recepção quanto me custaria uma viagem até ao aeroporto. Como não era assim muito caro (menos de $20) e eu ainda tinha algum dinheiro na carteira decidi ir de táxi. Porque não? Era merecido.
Na entrada do hotel havia uma fila exclusivamente para táxis de modo que apenas tive que entrar no primeiro que lá estava. O condutor era simpático e fomos conversando sobre nada específico durante a curta viagem. Não demorámos mais de dez minutos a lá chegar. Ele deixou-me junto ao meu terminal e eu agradeci-lhe, depois de pagar. Fiz o check-in rapidamente, pois ainda queria comer qualquer coisa antes de embarcar. Passei a segurança sem problemas e parei para comer numa cadeia de diners chamada Ruby's. Antes de entrar passei os olhos pelo menu para ver se havia alguma coisa que me agradasse àquela hora da manhã e encontrei uma sandes de ovo mexido que me pareceu prometedora. O restaurante não era muito grande, todo em tons de vermelho e branco, e estava relativamente cheio, como seria de esperar àquela hora da manhã. Fui para a fila onde ia fazer o pedido e depois fui-me sentar numa mesa sozinho. As pessoas à minha volta comiam com a pressa característica de um restaurante de aeroporto. O meu pedido demorou a chegar, deixando-me algo relutante sobre se deveria comer ali ou pedir para embrulhar. As empregadas pareciam baratas tontas, constantemente de um lado para o outro a limpar mesas e a entregar pedidos. Optei por comer lá, uma vez que a porta de embarque ficava ali perto e certamente que não me ia atrasar de forma a perder o avião. A sandes estava bastante quente mas não deixou de me saber bem; comi-a em meia dúzia de dentadas e fui-me embora.
Cheguei a Seattle cerca de três horas depois, tendo aproveitado para dormir durante grande parte do voo. Lá chegado, sabia que ainda ia ter que esperar um par de horas até partir para Chicago, onde iria apanhar o voo de ligação para Londres. Aproveitei para dar uma volta pela zona comercial do terminal e ver umas montras para me distrair. O tempo não estava a passar muito rapidamente e eu ia ter que o esticar ao máximo desta forma. Depois de ver, muito possivelmente, todas as montras do terminal, fui em busca de um sítio para comer. Havia várias opções e, sendo que estava na hora de almoço, todas elas apresentavam uma considerável fila que saía pela porta fora. A minha escolha recaiu para um restaurante de comida rápida mexicana que tinha bom aspecto, ainda que a fila não fosse nada curta. Esperei um pouco na fila até ser atendido e depois de despachado tive que esperar mais um pouco até encontrar uma mesa vazia, no meio de dezenas de mesas que estavam ocupadas. Eventualmente lá houve alguém que se levantou e eu pude ocupar a mesa. Depois de comer um delicioso burrito fiquei lá sentado a aproveitar a boa velocidade da internet gratuita do terminal - como é habitual em todos os terminais nos Estados Unidos, bem ao contrário dos europeus! Aproveitei também para ver algumas das fotos que tinha tirado durante a viagem até a hora de fazer o check-in se aproximar.
O voo entre Seattle e Chicago demorou cerca de quatro horas e não custou muito a fazer, embora o avião não fosse nada de especial e estivesse longe do standard a que a British Airways me habituou - muito provavelmente por ser um avião da American Airlines! A paragem em Chicago não ia ser muito longa, embora me tivesse dado tempo suficiente para ir à casa de banho e voltar, tendo ainda que esperar uns dez ou quinze minutos até ao embarque. Mal entrei no avião, senti um calor desconfortável dentro da cabine. O calor continuou a intensificar-se até que uma das hospedeiras de voo, disse através do intercomunicador, que o ar condicionado estava com um problema mas que eles o estavam a reparar. Temia um pouco pelos chocolates que trazia no saco (estava mesmo muito quente dentro da cabine!) e chamei a hospedeira para lhe perguntar se ia demorar muito até voltarmos a ter ar condicionado, uma vez que não queria que os chocolates se estragassem. Ela ofereceu-se, simpaticamente, para os pôr no frigorífico até o ar condicionado estar arranjado e eu não hesitei em aceitar a oferta. Por causa desse pormenor acabámos por sair de Seattle com um atraso significativo. A meio da viagem, antes do jantar ser servido, escolhi um filme da selecção disponível para ajudar a passar o tempo. Ao contrário da British Airways (que tem, literalmente, dezenas de filmes disponíveis) aqui só tinha cerca de dez. Optei pelo X-Men: First Class, que nunca tinha visto e tinha quase a certeza que não ia gostar. Só precisava de algo que me distraísse e esse filme ia cumprir o propósito perfeitamente.
Cheguei a Londres já no dia 16 pelas onze horas da manhã, depois de ter passado o resto do voo ora a ler, ora a dormir. A viagem foi calma o suficiente para me deixar pensar nas férias que tinha tido. Chegava agora ao fim mais uma aventura, aquela que tinha sido a maior que tinha vivido até então. No total, tinha visitado onze cidades em catorze dias, cumprindo o trajecto que me tinha proposto percorrer depois de meses de planeamento. Tinha vivido experiências que doutra forma certamente não teria vivido e o meu pensamento estava vidrado apenas numa coisa: nas próximas férias. Na louca ideia de ir ver o mundo. De viajar por uma quantidade de tempo indeterminado, tempo suficiente para não dar sequer para lhes chamar férias. Bastou-me sair do avião e sentir a brisa fresca da cidade de Londres, para perceber que estava de volta. Sorri ao aperceber-me de que as férias tinham acabado e de que daí a um dia ia voltar à rotina de passar oito horas em frente a um ecrã, num escritório, a trabalhar para alguém com quem não me identifico. A realidade era essa, mas o efeito que estava a ter em mim não era negativo, pelo contrário. Sorri de novo. A realidade era que naquele momento eu era um homem feliz e realizado. Um homem contente, que olhava para trás e pensava na quantidade de pessoas com quem se tinha cruzado, nas fotos que tinha tirado para mais tarde recordar, nas experiências que tinha vivido (das perigosas às puramente relaxantes), nas paisagens que tinha visto e, mais importantemente que o resto, nas lições pessoais que esta viagem lhe tinha ensinado. As histórias que acompanhavam a aventura não me deixavam mentir - a missão tinha sido cumprida. Nesse momento, ainda de sorriso na cara e pronto para voltar à rotina que é a vida no escritório, nasceu a semente que certamente ia dar fruto a mais uma viagem, a mais uma aventura; algo que me fizesse sentir vivo porque, no fundo, não existe melhor sensação que essa.

















































