9 de Abril de 2012

Costa Oeste dos EUA - Dias 13, 14 e 15

DIA 13 - 13/09/2011 (GRAND CANYON/LAS VEGAS)
Fui acordado por volta das cinco horas da manhã por um barulho estridentemente repetitivo que não se assemelhava em nada ao despertador do meu telemóvel. Ainda meio grogue, tentei perceber de onde vinha o barulho e, depois de olhar para a mesa de cabeceira, não demorei a perceber que era o telefone que estava a tocar. Mas porque raio me estavam a ligar àquela hora? Seria o serviço de bons dias? Atendi. Era uma senhora, tão simpática quanto a hora madrugadora o permitia, a dizer que a minha excursão para o Grand Canyon partiria do terminal de autocarros do hotel daí a quarenta e cinco minutos. Agradeci a chamada e desliguei. Olhei para o telemóvel, conferi que o despertador estava activado e voltei a encostar a cabeça na almofada. Acordei meia hora depois com ele a tocar, mas só saí da cama cerca de vinte minutos antes da hora marcada. Lavei os dentes, vesti-me e desci - tudo muito rapidamente, uma vez que não tinha tempo a perder. A caminho do ponto de encontro, passei pelo casino, que parecia não ter perdido nem um bocadinho da energia que tinha cerca de seis horas antes quando eu lá tinha estado a jogar. Parei numa pequena loja de conveniência, ainda dentro do casino, e comprei uma garrafa de água, que certamente me viria a ser útil quando a sede apertasse ao longo do dia.  

O ponto de encontro ficava nas traseiras do hotel e tinha espaço para um autocarro e um par de carros. Estavam lá bastantes pessoas à espera e a cara de sono e de quem podia ter dormido mais uns minutos era comum entre nós. Às seis horas o autocarro não estava lá e começou-se a gerar alguma confusão com algumas pessoas a perguntarem se aquele seria o sítio certo. Eu tinha conferido na noite anterior, antes de subir para o meu quarto, e a menina da recepção tinha-me confirmado que era ali, por isso não estava grandemente preocupado com o assunto. Caso não fosse ali o sítio certo, pensava eu, ao menos não era o único a ficar pendurado. Estava com alguma sede (por causa da barra de cereais que tinha trazido do quarto e comido) e tentei abrir a garrafa de água para dar um gole mas, depois de tentar algumas vez, não estava a conseguir fazê-lo com sucesso. Achei que foi por a tampa estar molhada e guardei a garrafa para tentar de novo no autocarro, que chegou entretanto. A chamada foi muito semelhante à que é feita na escola: o condutor tinha uma lista de nomes e ia dizendo-os alto até que um braço no ar indicasse que essa pessoa estava presente, verificando depois o bilhete e riscando o nome da lista.  Este processo demorou algum tempo porque, obviamente, pôr um americano a dizer nomes em mais de meia dúzia de línguas diferentes não podia dar bom resultado. Felizmente, eu sou alfabeticamente abençoado e não demorou até que o meu nome fosse chamado e eu pudesse entrar para dentro do autocarro e escolher um bom lugar, que acabou por ser lá mais atrás, junto à janela. O meu plano era muito simples: dormir até chegar ao Grand Canyon que, de acordo com a confirmação da reserva, ainda estaria a umas boas três horas de distância.

O autocarro, que não era assim nada de especial embora estivesse a anos luz dos da Greyhound, foi enchendo aos poucos e, muito para mal dos meus pecados, ao meu lado sentou-se um tipo inglês que estava com um amigo a conversar alegremente, entre bancos, com uma canadiana que tinha conhecido à entrada do autocarro. A conversa foi evoluindo rapidamente até chegar ao ponto em que era notório o interesse mútuo entre partes. Eu estava a ficar um bocado enjoado com a troca de elogios e impressões (do mais cor-de-rosa, cliché e enjoativo possível) e decidi pôr os meus headphones para ouvir alguma música antes que me visse obrigado a mudar de lugar devido a uma indisposição matinal. Para todos os efeitos eu ainda não tinha acordado, não àquela hora! O condutor entrou e seguimos viagem. Parámos em mais dois hotéis antes de seguirmos para um terminal grande, a meio caminho entre o aeroporto e o centro da cidade. Depois de pararmos, entrou um tipo no autocarro que disse que íamos ter que sair ali para fazermos o check-in e sermos divididos pelos autocarros da tour. Disse para termos atenção ao tipo de tour que tínhamos marcado e que à chamada, fossemos para onde ele tivesse indicado. Não estava a contar com isto, mas também não fiquei muito chateado. Aborrecia-me mais o facto de não ter conseguido abrir a garrafa das vezes que o tentei voltar a fazer dentro do autocarro; estava mais que danado e cruzou-me o pensamento várias vezes guardar a garrafa até ao fim do dia e ir lá fazer queixa à loja. Acabei por deitar a garrafa fora, uma vez que o preço que ela tinha custado certamente não valeria o incómodo de a carregar o dia todo.  

Quando chamaram a minha tour - que incluía uma visita aos dois miradouros no West Rim do Grand Canyon e almoço - fui para dentro do edifício e coloquei-me junto à parede, do lado esquerdo, na fila para o check-in. Entretanto veio outro senhor explicar brevemente o que ia acontecer durante o dia e que se alguém quisesse fazer um upgrade ao pacote comprado (adicionar uma viagem de helicóptero, descer até ao rio com um guia, visita guiada de jipe, entre outros) o podia fazer na caixa antes de pagar. Eu como só queria ir ao Grand Canyon para, literalmente, ver a vista, deixei-me ficar quieto na fila à espera que a mesma se começasse a movimentar. O ambiente era o ambiente habitual de excursão com muita gente demasiadamente excitada, boa disposição a rodos e muitas famílias. Como estava a ouvir música, tudo o que se passava à minha volta era-me meio indiferente. A fila lá começou a andar passado um bocado e o check-in fez-se bem. Também, diga-se, não tinha grande ciência. Entreguei o papel da confirmação que tinha impresso e troquei-o por um bilhete. A senhora da caixa disse-me que tinha direito a um pequeno-almoço, oferecido por eles, na sala ao lado e que ia ter que esperar lá até que me chamassem de novo. Agradeci e fui para a tal sala. 

A sala era grande e parecia uma daquelas salas preparadas para uma recepção de casamento (menos a decoração, claro): tinha duas ou três mesas em fila e um balcão onde se podia ir pedir o tal pequeno-almoço de que ela tinha falado. Como não tinha fome (nem paciência) não me enfiei na fila que entretanto se formou aí. Optei por comprar uma garrafa de água na máquina e ir à casa de banho. Depois de esperarmos ali um pouco chamaram-nos para ir para o autocarro. Eram dois autocarros pretos bastante imponentes, com dois andares e vidros fumados e um aspecto bem melhor do que o que nos tinha levado até ali. Não tinha razão para achar que ia ser uma má viagem, o autocarro prometia. Formou-se uma pequena fila à entrada de um dos autocarros e eu, tendo sido uma das primeiras pessoas a sair de dentro da sala de espera, juntei-me a ela quase no início. Na noite anterior tinha olhado para a previsão metereológica e reparei que a previsão era de chuva. Achei estranho, tendo em conta a altura do ano, mas não querendo ficar encharcado caso chovesse mesmo, decidi ir de calças e levar o meu corta-vento. Pouco depois de sair cá para fora senti uma ou duas pingas a cair do céu e não pude deixar de sorrir por dentro. O mais engraçado foi ver que a maioria das pessoas vinha vestida como se fosse para ir para a praia (os dias de Setembro no Grand Canyon são, geralmente, quentíssimos) e estavam notoriamente chocadas com o prospecto de apanharem chuva. 

Arranjei um lugar junto à janela no fundo do autocarro, que foi enchendo e enchendo até que um tipo que trabalhava para a empresa me veio perguntar se eu estava sozinho. Eu disse que sim, que estava. Ele pediu-me para mudar de lugar porque havia duas pessoas que queriam ir juntas e já não havia mais lugares de dois. Por muito que me apetecesse dizer que não, tive que o fazer. Principalmente, não queria empatar a vida de toda a gente que ali ia. Sentei-me então mais à frente junto a um tipo que fazia parte de um grupo de três. Não demorou muito até que eu percebesse que eles eram os três brasileiros e que o que ia ao meu lado não falava uma palavras de inglês. Depois do autocarro encher completamente, o motorista entrou e apresentou-se. Era o Mike, um pretão que se estava sempre a rir e a fazer rir. Mais que um motorista, ele era um entertainer e eu acho que essa é uma componente importante neste tipo de viagem. Mal se sentou ao volante disse para toda a gente tirar da cabeça a ideia de ir dormir até chegar ao Grand Canyon, uma vez que ele ia falar connosco até lá chegarmos. Foi nesta altura que percebi que o tipo que ia à minha frente ia passar a viagem a traduzir para inglês tudo o que o Mike ia dizendo, para o tipo que ia ao meu lado. Não era o fim do mundo, mas acho que conseguia passar bem sem a tradução simultânea. Já a caminho, o Mike pôs-nos a ver um vídeo sobre o Grand Canyon e as tribos que o habitam. Era interessante, mas confesso que os meus olhos se fecharam prolongadamente mais que um par de vezes enquanto o visionávamos. 

A primeira paragem ia ser na Hoover Dam, algo que eu estava extramamente excitado para ver. Infelizmente, por causa da chuva (que, tinha o Mike dito por esta altura, só representava 3% do ano em Las Vegas) não íamos poder parar mesmo na ponte, por questões de segurança. A minha excitação devia-se à monstruosidade da estrutura da barragem, pela qual nutro algum fascínio há bastante tempo. O Mike sugeriu parar o autocarro um pouco mais à frente, num sítio em que dava para ver a barragem e disse que quem quisesse podia sair para ir ver e tirar umas fotografias. Nesta altura o céu estava nada menos que medonho: cinzento e com névoa, para além de estar a chover já com alguma intensidade. Era óbvio que eu não ia ficar no autocarro, já que tinha trazido o corta-vento ia dar-lhe uso. Saí e corri até debaixo de um toldo, de onde corri para baixo de outro toldo até arranjar espaço para poder tirar algumas fotografias. Daquele sítio via-se a parte de trás da barragem e, ainda que fosse interessante, não era bem aquilo de que eu estava a procura. Teve que servir o propósito, ficando uma visita guiada à barragem agendada para uma possível futura visita. Depois de ir a uma pequena loja de lembranças da barragem, voltei para o autocarro, regozijado com as caras de pânico que os turistas mais veraneantes iam exibindo.


O Mike era engraçado e foi falando o tempo todo. Não deu para dormir mas também não aborreceu, até porque a pouco e pouco fui-me habituando à tradução simultânea para português do Brasil que tinha à minha frente. A paisagem era aridamente desértica, decorada com largos postes de electricidade que se repetiam a cada centena de metros, unidos pelos respectivos fios eléctricos e complementados por uma série de imponentes montes escuros, lá muito ao fundo, que completavam o cenário. Havia algumas verduras, mas eram raras. O céu continuava num tom cinzento, algo assustador, mas o Mike dizia que muitas vezes, tendo em conta que o Grand Canyon ainda ficava a um par de horas de distância dali, o clima não era necessariamente igual. Ele tinha esperança que esse fosse o caso e nós, nós não tínhamos remédio senão ficar também esperançados! Parámos numa estação de serviço no meio do nada (literalmente!) e saímos para uma pausa. Houve quem aproveitasse para ir à casa de banho ou para comprar comida ou lembranças. Era uma barraca que vendia um pouco de tudo e mais alguma coisa. Comprei umas Pringles e uma Coca-Cola; caso o almoço no Grand Canyon não fosse nada de especial, ao menos assim não ia ter fome até voltar a Las Vegas. Sabia que não era a opção mais saudável mas também, dadas as circunstâncias, não estava grandemente preocupado com isso. 



Seguimos viagem alguns minutos depois dos passageiros regressarem todos ao autocarro. Antes de chegarmos a um sítio onde iríamos (mais uma vez...) trocar de autocarro, passámos numa terra que tinha muito poucos habitantes. Tão poucos habitantes que nem sequer tinham água potável. O Mike contou umas histórias engraçadas sobre a terriola, que pouco mais passava de uma rua com atrelados de ambos os lados e alguns edifícios soltos aqui e ali. Parámos num descampado onde estavam estacionados uns quatro autocarros muito piores do que aquele em que tínhamos viajado até ali. Ele rapidamente explicou que dali, o caminho até ao Grand Canyon ia ser feito por uma estrada de terra batida, de modo que eles tinham uns autocarros mais antigos e em pior estado já preparados para a viagem. Dividiram-nos de novo por autocarros e seguimos, finalmente, em direcção ao nosso destino. Não demorámos muito tempo a chegar à reserva dos Hualapai, a tribo que habita na zona do Grand Canyon que íamos visitar. Havia duas tendas modernas bastante grandes e que serviam de entrada para a reserva natural. Foi-nos dada uma hora de regresso, cerca de três horas depois e a partir daí pudemos gerir o nosso tempo da forma que quisemos. A tenda estava ocupada por uma loja que tinha todo o tipo de artigos possíveis e imaginários sobre o Grand Canyon e a tribo dos Hualapai. Nada que me espantasse. Dei uma curta volta por lá e decidir sair pela porta oposta àquela por onde tinha entrado. Já dentro do parque, para chegar ao primeiro miradouro ia ter que apanhar (mais) um shuttle, que estava estacionado uns metros mais à frente. Havia dois miradouros nesta parte do Grand Canyon: o Eagle Point e o Guano Point. Para além deles, podia-se também visitar um rancho pertencente aos Hualapai. 

Decidi começar pelo Eagle Point, uma vez que era para lá que ia o shuttle. Este shuttle era um autocarro muito semelhante ao que nos trouxe no último terço da viagem e que percorria os dois pontos com intervalos regulares. As distâncias eram compridas o suficiente para justificarem uma viagem de autocarro e a pequena espera que daí surgiria. A caminho do primeiro miradouro, a senhora que controlava as entradas no shuttle disse, entre vários factos interessantes sobre o Canyon, que não morria ali ninguém por queda há vinte e três anos e que, se fosse possível, adorava que esse recorde se mantivesse - advertindo depois cautela. Mal parámos no Eagle Point e as portas se abriram, houve um pequeno grupo que rapidamente encheu o corredor para poder sair do autocarro. Eu esperei até poder sair calmamente, não estava com grande vontade de me misturar com turistas eufóricos. Eu era, muito provavelmente, o único visitante que ali estava sem companhia - diga-se em tom de curiosidade. Saí o autocarro e respirei fundo, afinal de contas estava no Grand Canyon!


A primeira coisa em que reparei, para além da vastidão que o Canyon nos apresenta, foi que não havia qualquer tipo de protecção que nos impedisse de cair lá para baixo. Fazia assim mais sentido aquilo que a senhora tinha dito no autocarro sobre as quedas. O miradouro ainda era bastante largo, localizado num dos pontos (acessíveis de carro) mais altos do Canyon e oferecia uma belíssima vista sobre ele. Felizmente não chovia, ainda que o céu continuasse tão medonho como na última paragem que tínhamos feito. Apressei-me até à melhor zona do miradouro e deixei-me absorver um pouco pela vista. Tudo aquilo que já tinha lido e visto sobre o Grand Canyon não fazia o mínimo jus ao que eu estava a presenciar diante de mim - o Grand Canyon engoliu-me inteiro e eu não conseguia acreditar que ali estava. É uma beleza difícil de explicar e que tem que ser vista para ser sentida. Em algumas partes do Canyon, a altura chega a ser de quase dois quilómetros e é difícil não sentir quão pequenos somos em relação ao mundo depois de experienciar tal grandeza. Fiquei lá mais algum tempo a observar e a absorver a vista de vários pontos no miradouro e aproveitei para tirar o máximo de fotografias possível - isto era algo que queria, definitivamente, recordar mais tarde.

O Eagle Point, chamado assim por ter numa das rochas uma forma que se assemelha ao formato de uma águia em voo (sagrada para os Hualapai), é também o sítio onde está localizado o Skywalk, uma estrutura com um chão de vidro (ou um qualquer outro material transparente) que, numa forma em U que sai para fora da borda do Canyon, deixa as pessoas verem o fundo do Grand Canyon como se estivessem suspensas no ar. Infelizmente, o preço elevado e o facto de não se poder entrar com máquina fotográfica fizeram com que o meu interesse em lá ir ficasse reduzido a muito pouco ou nenhum. Junto ao miradouro havia também uma espécie de restaurante, mais propriamente dois contentores transformados em cozinha, que serviam comida. A refeição estava incluída no preço da tour por isso só tive que me dirigir ao guichet e pedir a opção vegetariana. Depois de me darem o recibo tive que ir levantar a comida a outro contentor, que ficava uns metros ao lado. Esperei um pouco pela comida, que ficou longe de me impressionar - nada que eu não estivesse à espera. Era uma sanduíche que não primava pela qualidade da confecção, umas batatas fritas de pacote, uma peça de fruta e um refrigerante. Como estava com alguma fome e não tinha grandes expectativas em relação ao almoço, considerei-me contente por ter direito a uma opção vegetariana e fui-me sentar a comer. Havia muitas mesas em frente aos contentores e, como não chovia, a grande maioria estava cheia.

Depois de comer e de dar uma volta numa pequena construção dos Hualapai que, diga-se, não era assim muito interessante, fui-me colocar na fila para o shuttle, que nesta altura ainda não era muito grande. Enquanto esperava, os meus níveis de tolerância para com turistas barulhentos, piadas más, conversas sobre nada e exibição gratuita de vários tipos de anormalidade ficaram reduzidos a zero e tive que pôr os headphones até o shuttle chegar - cerca de quinze minutos depois. A viagem até ao Guano Point não demorou muito tempo mas, de novo, justificou totalmente a viagem de autocarro. Ao contrário do Eagle Point, que apenas apresenta a vista numa direcção, o Guano Point apresenta uma vista quase disempedida a 360º, tendo inclusive um pequeno monte que se pode subir para se ter uma vista difícil de igualar. A vista deste miradouro é melhor por ser mais abrangente e, de certa forma, profunda que a outra. Perdi aqui bastante tempo, por haver mais espaço e possibilidade de estar sozinho sem histerismos à minha volta. Parei junto a uma das melhores vistas e absorvi-a o máximo que pude durante vários minutos. O Grand Canyon estava-me a fazer sentir pequeno como ser humano e a fazer-me reflectir sobre a minha posição na vida. Várias questões assaltaram a minha mente naquele momento, tendo a mais importante sido aquela em que me questionei sobre se passar a vida num escritório a trabalhar das nove à cinco era o que eu queria fazer enquanto o mundo me reservava surpresas destas ao virar da esquina. Naquele momento eu estava a viver e, mais que isso, estava-me a encontrar a mim mesmo.



Depois de subir e descer do topo do monte, que ainda era ligeiramente alto e de acesso rudimentar, voltei calmamente para trás, até à paragem do shuttle. Sentia-me cheio por dentro e inspirado até mais não. Não tinha dúvidas de que esta tinha sido uma das melhores experiências da minha vida e, certamente, uma a repetir um dia mais tarde - eventualmente de forma mais profunda. O shuttle seguiu para o único ponto que me faltava: o rancho. Ainda tinha algum tempo (embora não fosse muito) e não me queria ir embora sem ver tudo aquilo a que tinha direito. Chegámos lá pouco depois e a minha primeira impressão foi de desapontamento. Como já estava quase na hora do fecho, não havia muitas coisas abertas no rancho mas, mesmo assim, o que vi não foi nada que me impressionasse. Basicamente era um rancho recriado ao estilo de um western, com uma prisão, uma forca, uma casa de gado, um saloon, etc...! Pareceu-me tudo um bocado forçado e "para turista ver". Dei uma volta rápida dentro do rancho e voltei cá para fora, onde fiquei a ver a paisagem do Canyon à distância. De onde estava só conseguia ver o topo das rochas lá ao fundo na planície. Enconstei-me lá numa cerca à espera que o próximo shuttle viesse e, quando o fez, fui o primeiro a entrar. A viagem até ao centro de visitas não foi muito comprida e, uma vez lá chegado, dei outra curta volta lá dentro, não comprando nada. Estava contente pela experiência e também com o facto de não terem chovido mais que algumas gotas, que não deram sequer para ficar molhado. Depois de levantar um certificado de visita ao Grand Canyon, gentilmente assinado e oferecido pelo chefe da tribo, segui para o autocarro, onde me sentei à espera que partíssemos. Não tinha sido o primeiro a chegar mas ainda ia ter que esperar cerca de meia hora até que o autocarro enchesse completamente e seguíssemos.


O caminho de regresso foi muito semelhante ao anterior, salvo a paragem para trocar de autocarro que, desta feita, nos deu algum tempo para ir ver as Joshua Trees - um tipo de árvore peculiar muito característico daquela zona. A partir daí, de novo com o Mike, a viagem fez-se lindamente, ao som das histórias que ele ia contando. Chegámos a Las Vegas já ao anoitecer, depois de um dia que tinha sido bastante comprido. À chegada, o Mike - convenientemente - falou das dificuldades financeiras de Las Vegas e de que nem tudo é como parece, de modo que uma gorjeta (merecida, a meu ver) seria mais que bem vinda. Aproveitou também para dar algumas dicas de jogo que, de certa forma, me vieram a dar jeito mais tarde. Ao contrário do dessa manhã, este autocarro ia-nos deixar directamente aos hotéis, não sendo preciso ir à estação onde tínhamos feito o check-in. Saí num hotel que ficava próximo do meu e dei-lhe uma gorjeta de $5 à saída. Reparei que pessoas que iam à minha frente e atrás de mim lhe deram notas de $10 e $20, o que levou a questionar quão bem pago seria aquele emprego. Claro que, como ele admitiu, muito daquele dinheiro ia acabar nas máquinas de jogo, mas mesmo assim não me pareceu uma má conta para um dia de trabalho.


Segui pela Strip abaixo até chegar ao meu hotel. Subi ao décimo sexto andar e fui para o meu quarto. Estava cansado e meio empoeirado, a única coisa que me apetecia naquela altura era encher a banheira com água e enfiar-me lá dentro antes de voltar a sair. Deixei a banheira a encher e fui despejar a mochila na segunda cama para a poder organizar mais tarde. Gostei de ver as memórias da viagem - em forma de postal ou lembrança - espalhadas dessa forma, fazendo-me lembrar quão bons momentos passei ao longo das duas semanas que tinham passado. Uma vez cheia, não perdi tempo a entrar na banheira e sentar-me relaxadamente a descansar enquanto reflectia sobre a viagem. Estava cansado, mas sentia-me bem. Sentia que aquele banho de imersão era como uma cereja no topo do bolo, depois de quase duas semanas intensas, e não podia pedir mais nada naquele momento. Fiquei ali até me fartar e, depois de me secar e vestir, segui para baixo. Antes de ir jogar queria comer qualquer coisa, o almoço já tinha sido há muito tempo e a fome começava a acusar. Saí do hotel e andei até encontrar uma pizzaria numa galeria que também tinha um restaurante chinês. Ambos os restaurantes tinham apenas um balcão e inúmeras mesas espalhadas à sua frente. Pedi duas fatias de pizza e sentei-me numa dessas mesas a jantar. O sítio estava cheio, mas não deixei que isso me impedisse de saborear a comida o máximo que pude.

O plano para essa noite era simples: andar ali pelas imediações do hotel a jogar em vários casinos até rebentar o orçamento que tinha feito para tal. Andei de casino em casino a jogar em slot machines e video poker até gastar o dinheiro que tinha e depois disso decidi voltar para o hotel, uma vez que se fazia tarde e eu queria acordar cedo na manhã seguinte para ver o Benfica contra o Manchester United, que iam jogar para a fase de grupos da Liga dos Campeões (às dez da manhã locais). Como ainda não sabia onde ia ver o jogo, queria sair do hotel relativamente cedo para não correr riscos desnecessários. Antes de me deitar, decidi pôr os ténis na varanda, para arejarem - merecidamente - de 13 dias intensos e de muitos quilómetros percorridos. Fiquei um pouco na varanda a contemplar a vista, que não era deslumbrante, e depois disso fui-me deitar. O meu estado de cansaço era notório e não foi preciso muito tempo no conforto daquela cama até que tivesse adormecido à espera que um novo dia me acordasse.


DIA 14 - 14/09/2011 (LAS VEGAS)
Acordei sem despertador, não tão cedo como queria. Ouvi um barulho que me era familiar, igual ao das gotas de água da chuva quando vão de encontro à janela numa manhã de Inverno, mas deixei-me estar quieto sem pensar duas vezes no assunto - não há nada como estar debaixo do quente do edredão enquanto se ouve a chuva a cair lá fora. Não foi até minutos depois que me lembrei, repentinamente, que tinha deixado os ténis na varanda. Saí da cama rapidamente e corri para a janela, abrindo a cortina para me deparar com uma autêntica carga de água a cair lá fora. Lembrei-me daquilo que o Mike tinha dito no dia anterior, sobre apenas chover 3% do ano em Las Vegas, e questionava-me sobre o porquê de ter que ter acontecido exactamente na altura em que eu lá tinha estado. Abri a porta e trouxe os ténis para dentro. Dizer que estavam ensopados era ser muito generoso. Levei-os rapidamente para a casa de banho onde os tentei espremer o máximo possível na banheira. Visto que isso não estava a provocar resultados evidentes, decidi tentar secá-los com o secador de cabelo da casa de banho, algo que também não me pareceu ter apresentado grandes melhorias ao estado lastimável em que eles estavam. Conformado com o facto de não os poder usar nesse dia, deixei-os na banheira a secar e optei por calçar o par de ténis suplente que tinha trazido. Ao contrário dos que tinha posto na varanda na noite anterior, estes não eram feitos especificamente para andar e certamente que não me iam deixar andar distâncias tão longas. Felizmente neste caso, este era (teoricamente falando) o último dia da viagem e, ainda que tivesse planeado andar bastante, não era nada que se comparasse a outros dias.

Arranjei-me rapidamente e desci, perguntando na recepção se por acaso não teriam uma lavandaria no hotel onde eu pudesse enfiar os ténis numa máquina de secar roupa. A senhora, visivelmente triste com os contornos da história que lhe tinha acabado de contar, disse que infelizmente não tinham, que mandavam a roupa para fora e que ela era entregue no dia seguinte. Agradeci na mesma mas disse que isso não me serviria de muito, até porque não acreditava que eles tivessem um serviço específico para ténis encharcados. Não era o fim do mundo e eu não ia deixar de fazer nada do que tinha planeado por causa disso. Saí cá para fora e segui em direcção ao Venetian, onde - tinha lido algures - ia encontrar algo parecido a uma casa de apostas de jogo onde os ecrãs certamente iriam mostrar o desafio. Já não chovia, embora as nuvens cinzentas fizessem prever que ainda aí viria mais chuva. O Venetian, como o próprio nome indica, é um hotel tematicamente veneziano. Desde a arquitectura, passando pelas estátuas e pelas fontes, é como andar numa versão pequena de Veneza - incluindo os famosos canais e as gôndolas com seus gondoleiros trajados a rigor. Entrei pela galeria comercial e fiquei - quase imediatamente - embasbacado com o que via: por dentro, a galeria estava construída de forma a recriar a cidade de Veneza, com as fachadas das lojas construídas como sendo casas e os corredores como sendo ruas. Para complementar isto, o tecto dava a ilusão de ser o céu - mudando entre noite e dia em períodos espaçados de tempo. Estava maravilhado.




Como o tempo começava a apertar, não pude perder ali muito tempo e fui directamente ao casino onde procurei pela tal casa de apostas onde poderia ver o jogo. Lá chegado, depois de atravessar uma outra galeria que se destacava pelas fontes em cascata e jardins lindos, perguntei a um senhor se me poderia ajudar a encontrar o que procurava. Ele disse-me que ali não ia encontrar o que queria, mas que se fosse até ao Palazzo e procurasse o Lagasse's Stadium ia certamente encontrar aquilo que procurava. Agradeci e não perdi tempo em pôr-me a caminho. Encontrei o sítio com alguma dificuldade, uma vez que ficava na cave do hotel e os hotéis em Las Vegas são tudo menos pequenos! O sítio era bastante diferente daquilo que eu tinha imaginado... Era um bar com sofás, decorado sofisticadamente e com ecrãs por todo o lado. Folguei em ver que os três ecrãs por cima do balcão iam todos mostrar o jogo e decidi sentar-me, pronto para pedir alguma coisa para comer. O tipo que trabalhava no bar era simpático e eu engracei com ele logo desde o início. A zona para se apostar ficava por trás do bar mas eu não fui lá, uma vez que não tenho o hábito de apostar em resultados de jogos. Mandei vir um prato de hummus com pão e uma Coca-Cola que, pensei eu, deveria servir de acompanhamento para o jogo todo. Durante o jogo fui conversando com ele sobre os mais variados assuntos mas focando principalmente no desporto - tanto americano como europeu. Ele, engraçadamente, mencionou que o futebol teria muito mais piada e interesse se a baliza tivesse mais um metro para cada lado e eu, claro, não pude deixar de me rir. Deviam estar cerca de quatro ou cinco pessoas ao balcão a ver o jogo e, a meio da segunda parte, um tipo que estava sentado ao meu lado meteu conversa. Ele era de Los Angeles e estava em Las Vegas com o pai por um motivo que não percebi totalmente qual era. Estivemos a falar imenso de futebol e principalmente do Manchester United. Ele falou-me que o sonho dele era ir a Old Trafford e que o futebol nos Estados Unidos ainda tinha muito caminho a percorrer até chegar ao nível do europeu. Queixou-se do facto de nos Estados Unidos a liga ter um formato ridículo, do facto de ser tudo patrocinado (os pénaltis têm o nome das marcas que os patrocinam) e, principalmente, das claques e os adeptos serem, na sua grande maioria, uma autêntica anedota e cópia barata dos que se passa na Europa. Ele era adepto dos LA Galaxy, por ser a equipa da cidade dele e por ter uma série de amigos que jogavam na equipa principal. Trocámos contacto para, dizia ele, no caso de eu alguma vez voltar a Los Angeles lhe dizer alguma coisa para ele me levar a ver os Galaxy. No fim do jogo pedi a conta, que o dia ainda vinha longo, e dei uma gorjeta amigável ao empregado. Despedi-me do meu novo amigo e voltei para a rua.


Dei um passeio por aquela zona da Strip, passando por uma série de hotéis e casinos que queria ver, nem que fosse por fora. Já tinha seleccionado de antemão quais eram os casinos que não queria perder, de forma a evitar andar de um lado para o outro desnecessariamente. Afinal de contas, só ia ter um dia em Las Vegas, uma vez que o meu voo para Seattle saía de Las Vegas cedo na manhã seguinte. O primeiro hotel por onde passei foi o Wynn, que era arquitectonicamente elegante e tinha um jardim lindíssimo cá fora. Dava para ver uma Trump Tower dourada mais ao fundo, seguida da torre do Stratosphere que tanto me assustou (ou salvou?!) na primeira noite. Atravessei para o outro lado da estrada e fui em direcção ao Treasure Island, que é tematicamente centrado numa ilha do tesouro, com barcos de piratas a decorar a parte de fora do hotel. Entrei no casino para jogar uns trocos e segui viagem. O meu próximo destino, de acordo com a minha lista, eram as galerias comerciais do Caesars Palace - algo que eu não poderia perder por nada! Adequadamente chamadas The Forum, as galerias são um espaço enorme completamente decorado como sendo Roma antiga. Quando digo completamente digo desde pinturas maravilhosas no tecto a estátuas do mais clássico possível a adornar todo o espaço. Isto, claro, sem esquecer as inúmeras fontes - muitas delas réplicas das originais. Era, mais ou menos, como passear em Itália na altura do renascimento. Estava maravilhado. Muito como o Venetian, também aqui a galeria tinha sido construída de forma a dar ilusão de ser uma cidade, com as fachadas das lojas a recriarem o cenário urbano da época e o tecto a dar uma ilusão constante de noite e dia. Tudo lá dentro era grande e tudo era, também, grandemente maravilhoso. Desci até ao casino, onde tinha decidido gastar algum dinheiro uma vez que uma vinda a Las Vegas não fica completa sem se jogar no Caesars Palace. A realidade, no entanto, é que os casinos por dentro diferem muito pouco uns dos outros. Claro que as decorações são diferentes, mas no fundo, acaba por ser sempre mais do mesmo.



Continuei em frente, chegando rapidamente ao Paris e suas reproduções incríveis, tanto da Torre Eiffel como do Arco do Triunfo. Todo o hotel, ao seu bom estilo parisiense, era maravilhoso por fora, replicando todos os detalhes que tornam Paris uma cidade especial. Mais à frente, depois de ter passado o Bellagio, o Planet Hollywood e uma série de lojas de roupa de alta costura num complexo arquitectonicamente peculiar, segui em direcção ao Monte Carlo, onde parei para jogar. A impressão que tinha de Las Vegas (ou da Strip, mais correctamente dizendo) nesta altura era de que tudo era grande e de que não havia distâncias curtas entre sítios. Os hotéis são todos gigantes, no sentido literal da palavra, e andar de uns para os outros, parando para tirar fotografias e deixar umas moedas nas máquinas de jogo é uma tarefa que consome mais tempo do que aquilo que possa originalmente parecer. Segui em direcção ao New York, New York que ficava um pouco mais abaixo na Strip. Pelo caminho passei pela loja da Coca-Cola (com uma fachada que replicava a garrafa icónica em formato gigante), a loja dos M&M's e o Hard Rock Café, figurando os dois primeiros na minha lista de sítios a visitar - algo que tencionava fazer mais tarde nesse dia, quando fizesse o caminho de volta pelo outro lado da avenida.




A entrada do New York, New York tem uma espécie de réplica da ponte de Brooklyn, estando o resto do edifício decorado como se fosse um bairro nova-iorquino com arranha-céus, alguns prédios baixos típicos e até uma réplica da Estátua da Liberdade. Para além disso tem, por cima do primeiro nível do telhado, uma montanha-russa. O casino era engraçado, lembrando Nova Iorque durante a noite com os seus néons, pizzarias e bares de jazz. Subi até ao salão de jogos onde decidi jogar numas máquinas que têm um amontoado de moedas e cujo objectivo é, através de uma ranhura, enfiar mais moedas (de 2 cêntimos...) para fazer com que as que lá estão caiam e nos façam acumular pontos que podem ser trocados por prémios. Perdi algum tempo a jogar nessas máquinas e, uma vez farto, fui trocar os pontos que tinha ganho por um prémio. Depois de muito ponderar (a oferta não era muito variada para o número de pontos que tinha) optei por dois ímanes de frigorífico do Mickey e da Minnie e um chupa-chupa. Foi o melhor que consegui desencantar dadas as circunstâncias, sempre era melhor que nada! Daí fui até à entrada da montanha-russa perguntar quanto custava cada volta. A senhora disse-me que eram $14 e eu, depois de pensar uns segundos no assunto, decidi que era dinheiro a mais para uma volta numa montanha-russa. Voltei a descer até à entrada ainda a matutar sobre o assunto e, chegando à rua, parei e voltei para trás. A minha linha de pensamento foi simples: só vou viver uma vez e se não aproveitar esta vida não vou ter outra para fazer as coisas que não tive hipótese de fazer enquanto pude. Vendo as coisas dessa perspectiva, o preço até nem era assim tão alto para uns três minutos de diversão.



Voltei lá acima, comprei o meu bilhete e fui deixar tudo o que me pudesse cair dos bolsos num dos cacifos que ficavam à entrada da zona de embarque para a montanha-russa. Não esperei muito tempo até entrar. O trajecto começa com uma subida que é assustadoramente complementada pelo nosso reflexo num dos edifícios do hotel, que é totalmente espelhado. A descida que se seguiu foi igualmente assustadora, não tanto por causa do reflexo, mas sim pela inclinação. O resto da montanha-russa foi não desapontou, com curvas e contracurvas suficientes para me deixarem a chamar-lhe nomes à medida que íamos avançando. Pecou um pouco pelo curto tempo que demora, mas não estava aborrecido - tinha sido uma óptima experiência e uma que voltaria a repetir se a hipótese surgisse. Desci, contente, e continuei o meu caminho, desta feita em direcção ao Luxor, que queria fotografar por ter a forma de uma pirâmide (ainda que espelhada com vidro escuro). A temática era, obviamente, o Egipto e as estátuas e réplicas de deuses egípcios cá fora não deixava mentir. Depois de passar o Mandalay Bay decidi, com alguma relutância inicial, seguir em frente em direcção ao sinal de Las Vegas (aquele em forma de losango que diz "Welcome to Fabulous Las Vegas"). São as pequenas coisas que me deixam excitado sobre viajar e eu não me queria ir embora sem ver este ícone da cidade. A relutância deveu-se ao facto de já estar um pouco cansado (como um par de ténis consegue fazer toda a diferença) e ao prospecto de ter que voltar a  fazer o caminho todo para trás.


A partir do Mandalay Bay a vista não diferia muito daquela que eu tinha experienciado na minha primeira noite em Las Vegas, quando me deixei ficar dentro do autocarro até já ser tarde demais. Fui passando por vários motéis e algumas das muito famosas capelas para casamentos rápidos. Demorei cerca de vinte minutos a lá chegar, talvez um pouco menos. Passei por um descampado de onde dava para ver o aeroporto ao fundo, com uma montanha a complementar a paisagem. Tal como Phoenix, Las Vegas fica também no meio do deserto. Cheguei ao sinal ao mesmo tempo que um grupo de turistas que estava a sair do autocarro. Apressei-me um pouco para conseguir tirar as fotos que queria antes que eles ocupassem o espaço. Quando cheguei mais perto reparei que estava, naquele momento, a decorrer uma cerimónia que envolvia dois noivos a serem casados por um padre vestido de Elvis - completo com microfone e coluna. Não deve ser todos os dias que se vê um cenário semelhante (se calhar em Las Vegas é...!) por isso fiquei lá um pouco a ver a cerimónia. Segui pouco depois de volta para a parte interessante da Strip, onde aproveitei para ir até ao casino da MGM ver os leopardos que eles têm lá dentro. Quando cheguei, a audiência que circundava a jaula (de vidro) era mais que muita, de modo que decidi não ficar lá muito tempo. Tirei uma ou duas fotos e vim-me embora. Vendo bem, uns quantos leopardos dentro de uma caixa de vidro não são assim tão excitantes... pelo menos para quem já tenha ido a um zoo.



Depois disso, a minha primeira paragem foi na loja dos M&M's que, tendo eu ido já à de Nova Iorque e à de Londres, não esperava que me fosse surpreender. Dei uma volta lá por dentro e comprei algumas prendas para trazer de volta mas, no geral, não estava grandemente surpreendido. Seguiu-se a loja que mais tinha curiosidade em ver e onde sabia que ia querer gastar algum dinheiro: a da Coca-Cola! Mal entrei fiquei louco com a quantidade coisas que havia para venda. Desde copos em miniatura até t-shirts, lápis, enfeites de árvore de Natal... tudo! Tudo o que fosse possível criar e vender com um logotipo da Coca-Cola, eles tinham pensado nisso e estava lá à venda. Estava absolutamente deliciado e, até certo ponto, a fazer contas de cabeça para ver quanto dinheiro queria gastar ali. Subi ao primeiro andar onde acabei por me perder ainda mais, uma vez que era onde estavam todos os artigos menos comerciais. Desde panos de cozinha a bandejas, aventais, relógios, réplicas de sinais antigos... tudo! Demorei algum tempo a escolher o que queria trazer comigo mas não o dei por mal empregue. Enquanto procurava parei no pequeno bar que eles tinham lá em cima e pedi uma Coca-Cola de baunilha, claro! Pedi uma de máquina, uma vez que já sabia que não ia ter hipótese de o voltar a fazer por algum tempo, já que não está disponível na Europa a não ser em lojas que a importam especificamente (...para a vender a um preço exorbitante). Paguei e saí, contente com as minhas compras. Não fiquei muito tempo na rua, uma vez que mesmo ao lado havia uma loja de souvenirs, onde comprei o resto das lembranças que me faltavam. Perdi aí bastante tempo a escolher o que levar entre milhares de bugigangas de todas as formas e feitios.


A caminho do hotel, onde fazia tenção de deixar as compras antes de seguir para a parte antiga da cidade, parei em frente ao Bellagio para ver o espectáculo luminoso que eles têm com água. É um espectáculo bonito e fiquei contente de ter passado lá na hora em que ele aconteceu. Havia mais uma série de espectáculos do género a acontecer a horas certas mas não tive muita paciência para os andar a seguir. Chegado ao Imperial Palace, subi rapidamente ao meu quarto para deixar o saco e voltei a descer. A ideia era ir até à parte antiga de Las Vegas, que tinha sido, em tempos, o núcleo principal de casinos - muito antes da Strip ser sequer criada. Tinha lido que havia um espectaculo gratuito bonito de se ver e, uma vez que lá estava, não me queria ir embora sem poder vir a opinar sobre o assunto. Apanhei um autocarro cheiíssimo minutos depois que, lentamente, lá acabou por me levar até onde queria ir. A tal parte antiga da cidade não ficava propriamente perto do centro, sendo até algo deslocada. A viagem deve ter demorado qualquer coisa como quarenta minutos a uma hora, a passo de caracol. Saí na paragem certa e não demorei a encontrar o que procurava. O espectáculo funcionava a horas certas e eu tinha chegado a tempo de apanhar o último do dia. Todo o sítio parecia respirar um ambiente mais vintage e parado no tempo que a Strip, onde a modernidade reina. Até certo ponto, parece que é outra cidade. Os casinos estão cobertos de luzes do chão ao tecto, as ruas são pequenas e as pessoas menos histéricas. Aquilo que eu queria ver era um espectáculo de vídeo apresentado naquele que, diziam eles, é o maior ecrã do mundo. O ecrã era abaulado e cobria a rua toda, apoiado numa estrutura de pilares que o erguia a muitos metros do chão, fazendo assim de tecto. A rua ainda era comprida, fazendo-me acreditar na promessa feita por eles.



Como ainda faltavam alguns minutos para o próximo espectáculo fui dar uma volta por lá para tirar aquelas que seriam as últimas fotos da viagem. A meio da rua estava a haver um concerto de uma banda de tributo aos Doors e, sendo eu bastante fã da banda (original), não pude deixar de ficar lá um pouco a apreciar o concerto. Eles tocavam bem e o vocalista até tinha boa voz, tentando imitar o Jim Morrison nas suas poses e jeitos. Achei graça às duas músicas que ouvi deles antes do fim do concerto e fui dar mais uma volta até à hora do espectáculo começar. A temática era a música American Pie e toda a animação girava em torno disso. É um espectáculo digno de se ver embora tenha que confessar que a posição para o fazer não seja a mais confortável, com o pescoço inclinado para trás durante quase dez minutos; algumas pessoas com mais bom senso e menos preocupações higiénicas que eu deitaram-se no chão, ficando assim com uma muito melhor percepção daquilo que estava a acontecer. Uma vez findo o espectáculo fui procurar o autocarro de regresso, uma vez que já era tarde e eu não só ainda não tinha jantado, como ainda queria ir empatar uns trocos nas máquinas antes de me ir deitar.


Como já tinha visto no mapa, antes de lá chegar, sabia que o autocarro ficava numa rua paralela àquela em que eu tinha saído aquando da minha chegada. Depois de procurar um pouco lá encontrei o sítio certo. A fila para apanhar o autocarro ficou cresceu muito rapidamente mas, felizmente, na altura em que lá cheguei ainda estava no começo. A viagem, ainda que lenta, foi um bocado mais rápida que a de ida e acabei por sair um par de ruas antes da minha. Como estava com fome, o meu objectivo era, primeiramente, comer alguma coisa. Fui até ao sítio onde tinha comido as duas fatias de pizza no dia anterior mas quando lá cheguei, já estava fechado. Andei um pouco para trás e para a frente à procura de um sítio aberto que tivesse comida vegetariana e acabei por encontrar um Subway aberto dentro de um dos casinos, numa zona de restauração. Não hesitei. Depois disso, cansado e sem ter ainda a mochila arrumada para a viagem, decidi ir directamente para o quarto e deixar o jogo para uma outra visita. O hotel não ficava muito longe de onde estava e pus-me lá num instante. Perdi algum tempo a arrumar a mochila, separando aquilo que não ia querer levar (maioritariamente lixo, panfletos e mapas) do resto das coisas. Arrumei tudo o melhor que pude e deitei-me com um sabor de satisfação na boca - a missão tinha sido cumprida.

DIA 15 - 15/09/2011 (LAS VEGAS/SEATTLE/LONDRES)
O despertador tocou por volta das sete horas da manhã. O voo para Seattle, de onde voaria para Londres via Chicago, estava marcado para as nove e dez da manhã e eu queria chegar ao aeroporto com alguma antecedência; de todos os voos, este era aquele que eu não podia sequer pensar em perder. Tomei um duche e acabei de arrumar a mochila. Aproveitei o saco que tinha trazido da loja da Coca-Cola para colocar algumas coisas mais pesadas e alguns chocolates que tinha comprado no dia anterior. Para chegar ao aeroporto podia apanhar o autocarro ou ir de táxi. A minha ideia original era ir de autocarro mas antes de sair para a rua perguntei na recepção quanto me custaria uma viagem até ao aeroporto. Como não era assim muito caro (menos de $20) e eu ainda tinha algum dinheiro na carteira decidi ir de táxi. Porque não? Era merecido.

Na entrada do hotel havia uma fila exclusivamente para táxis de modo que apenas tive que entrar no primeiro que lá estava. O condutor era simpático e fomos conversando sobre nada específico durante a curta viagem. Não demorámos mais de dez minutos a lá chegar. Ele deixou-me junto ao meu terminal e eu agradeci-lhe, depois de pagar. Fiz o check-in rapidamente, pois ainda queria comer qualquer coisa antes de embarcar. Passei a segurança sem problemas e parei para comer numa cadeia de diners chamada Ruby's. Antes de entrar passei os olhos pelo menu para ver se havia alguma coisa que me agradasse àquela hora da manhã e encontrei uma sandes de ovo mexido que me pareceu prometedora. O restaurante não era muito grande, todo em tons de vermelho e branco, e estava relativamente cheio, como seria de esperar àquela hora da manhã. Fui para a fila onde ia fazer o pedido e depois fui-me sentar numa mesa sozinho. As pessoas à minha volta comiam com a pressa característica de um restaurante de aeroporto. O meu pedido demorou a chegar, deixando-me algo relutante sobre se deveria comer ali ou pedir para embrulhar. As empregadas pareciam baratas tontas, constantemente de um lado para o outro a limpar mesas e a entregar pedidos. Optei por comer lá, uma vez que a porta de embarque ficava ali perto e certamente que não me ia atrasar de forma a perder o avião. A sandes estava bastante quente mas não deixou de me saber bem; comi-a em meia dúzia de dentadas e fui-me embora.

Cheguei a Seattle cerca de três horas depois, tendo aproveitado para dormir durante grande parte do voo. Lá chegado, sabia que ainda ia ter que esperar um par de horas até partir para Chicago, onde iria apanhar o voo de ligação para Londres. Aproveitei para dar uma volta pela zona comercial do terminal e ver umas montras para me distrair. O tempo não estava a passar muito rapidamente e eu ia ter que o esticar ao máximo desta forma. Depois de ver, muito possivelmente, todas as montras do terminal, fui em busca de um sítio para comer. Havia várias opções e, sendo que estava na hora de almoço, todas elas apresentavam uma considerável fila que saía pela porta fora. A minha escolha recaiu para um restaurante de comida rápida mexicana que tinha bom aspecto, ainda que a fila não fosse nada curta. Esperei um pouco na fila até ser atendido e depois de despachado tive que esperar mais um pouco até encontrar uma mesa vazia, no meio de dezenas de mesas que estavam ocupadas. Eventualmente lá houve alguém que se levantou e eu pude ocupar a mesa. Depois de comer um delicioso burrito fiquei lá sentado a aproveitar a boa velocidade da internet gratuita do terminal - como é habitual em todos os terminais nos Estados Unidos, bem ao contrário dos europeus! Aproveitei também para ver algumas das fotos que tinha tirado durante a viagem até a hora de fazer o check-in se aproximar.

O voo entre Seattle e Chicago demorou cerca de quatro horas e não custou muito a fazer, embora o avião não fosse nada de especial e estivesse longe do standard a que a British Airways me habituou - muito provavelmente por ser um avião da American Airlines! A paragem em Chicago não ia ser muito longa, embora me tivesse dado tempo suficiente para ir à casa de banho e voltar, tendo ainda que esperar uns dez ou quinze minutos até ao embarque. Mal entrei no avião, senti um calor desconfortável dentro da cabine. O calor continuou a intensificar-se até que uma das hospedeiras de voo, disse através do intercomunicador, que o ar condicionado estava com um problema mas que eles o estavam a reparar. Temia um pouco pelos chocolates que trazia no saco (estava mesmo muito quente dentro da cabine!) e chamei a hospedeira para lhe perguntar se ia demorar muito até voltarmos a ter ar condicionado, uma vez que não queria que os chocolates se estragassem. Ela ofereceu-se, simpaticamente, para os pôr no frigorífico até o ar condicionado estar arranjado e eu não hesitei em aceitar a oferta. Por causa desse pormenor acabámos por sair de Seattle com um atraso significativo. A meio da viagem, antes do jantar ser servido, escolhi um filme da selecção disponível para ajudar a passar o tempo. Ao contrário da British Airways (que tem, literalmente, dezenas de filmes disponíveis) aqui só tinha cerca de dez. Optei pelo X-Men: First Class, que nunca tinha visto e tinha quase a certeza que não ia gostar. Só precisava de algo que me distraísse e esse filme ia cumprir o propósito perfeitamente.

Cheguei a Londres já no dia 16 pelas onze horas da manhã, depois de ter passado o resto do voo ora a ler, ora a dormir. A viagem foi calma o suficiente para me deixar pensar nas férias que tinha tido. Chegava agora ao fim mais uma aventura, aquela que tinha sido a maior que tinha vivido até então. No total, tinha visitado onze cidades em catorze dias, cumprindo o trajecto que me tinha proposto percorrer depois de meses de planeamento. Tinha vivido experiências que doutra forma certamente não teria vivido e o meu pensamento estava vidrado apenas numa coisa: nas próximas férias. Na louca ideia de ir ver o mundo. De viajar por uma quantidade de tempo indeterminado, tempo suficiente para não dar sequer para lhes chamar férias. Bastou-me sair do avião e sentir a brisa fresca da cidade de Londres, para perceber que estava de volta. Sorri ao aperceber-me de que as férias tinham acabado e de que daí a um dia ia voltar à rotina de passar oito horas em frente a um ecrã, num escritório, a trabalhar para alguém com quem não me identifico. A realidade era essa, mas o efeito que estava a ter em mim não era negativo, pelo contrário. Sorri de novo. A realidade era que naquele momento eu era um homem feliz e realizado. Um homem contente, que olhava para trás e pensava na quantidade de pessoas com quem se tinha cruzado, nas fotos que tinha tirado para mais tarde recordar, nas experiências que tinha vivido (das perigosas às puramente relaxantes), nas paisagens que tinha visto e, mais importantemente que o resto, nas lições pessoais que esta viagem lhe tinha ensinado. As histórias que acompanhavam a aventura não me deixavam mentir - a missão tinha sido cumprida. Nesse momento, ainda de sorriso na cara e pronto para voltar à rotina que é a vida no escritório, nasceu a semente que certamente ia dar fruto a mais uma viagem, a mais uma aventura; algo que me fizesse sentir vivo porque, no fundo, não existe melhor sensação que essa.

29 de Março de 2012

Costa Oeste dos Estados Unidos - Dias 11 e 12

DIA 11 - 11/09/2011 (TIJUANA/SAN DIEGO)
Deviam ser cerca de sete horas da manhã quando acordei. Ao contrário da noite anterior, não se houvia um único barulho na rua - tendo este sido substituído por uma belíssima manhã solarenga de Verão. Fui o primeiro a acordar. Desci do beliche e fui tomar um duche. A casa de banho - partilhada - não tinha ninguém, dando-me assim a oportunidade de escolher um dos seis chuveiros disponíveis. Estava a precisar de me lavar e não me preocupei muito com o tempo que passei debaixo de água, afinal de contas era domingo e certamente que ninguém ia estar com pressa para ir para o trabalho. Depois de me vestir e dar um arrumadela nas minhas coisas, deixei as minhas companheiras de quarto a dormir e desci até à cozinha para tomar o pequeno-almoço, que estava incluído no preço. O hostel era num edifício antigo e estava muito bem recuperado e decorado. A cozinha era grande e tinha uma mezzanine que lhe dava um ar caseiro e confortável. Quando entrei, estavam alguns hóspedes a fazer panquecas enquanto outros estavam calmamente sentados a comer. Depois de passar os olhos pelas estantes em busca do que comer, decidi aventurar-me para uma taça de Froot Loops - uns cereais que não existem na Europa. Peguei numa taça e enchi-a com cereais e leite. Subi até à mezzanine e sentei-me lá a comer enquanto acedia à internet através do telemóvel. Nunca tinha comido Froot Loops e fiquei completamente deliciado. São pequenas argolas de trigo com sabor a fruta e, certamente, açúcar a mais. Uma vez despachado, fui até à recepção perguntar algumas informações sobre como ir até Tijuana - que tinha planeado visitar nesse dia.


No entanto, antes de ir para Tijuana tinha que acabar de escrever e enviar um documento importante. Seguindo a dica do recepcionista egípcio do dia anterior, fui em busca da loja que ele mencionou; chamava-se Kinko's e ficava lá perto, convenientemente colocada em frente à paragem do tram para Tijuana. Como seria de esperar, não estava ninguém na loja a não ser o empregado. Era um espaço confortável com várias secretárias com computadores e um serviço de fotocópias. Disse ao senhor ao que vinha e ele sentou-me num computador com um contador de tempo/dinheiro. Sentei-me a escrever durante cerca de uma hora e meia e, uma vez despachado, paguei e vim-me embora. O dia estava quente e bonito e eu não o queria de outra forma. A paragem do tram para Tijuana ficava, literalmente, do outro lado da rua por isso foi uma questão de a atravessar e perceber de que lado é que tinha que esperar. Comprei o meu bilhete e esperei uns quinze minutos pelo tram. De todos os dias possíveis para visitar Tijuana este seria, muito provavelmente, o mais peculiar. Não tanto por ser domingo mas sim por ser o décimo aniversário do ataque terrorista ao World Trade Center, em Nova Iorque. Geralmente, pelo que consegui apurar - perguntando aqui e ali, entre conversas, ao longo da viagem - o 11 de Setembro é um dia em que os americanos se reservam um pouco para eles próprios, dando inclusivamente para sentir quão ferido ficou o orgulho nacional por causa do ataque.

A viagem no tram foi calma e durou cerca de quarenta minutos até à fronteira com o México. Lá chegado, tive que atravessar uma ponte pedonal de betão até à fronteira propriamente dita. Sentia que estava prestes a entrar num mundo diferente e não conseguia esconder a excitação. Entrar no México é fácil, basta passar por uma das grades giratórias; nem polícia, nem verificação de passaporte, nem controlo fronteiriço... nada. Fiquei espantando. Sabia que era fácil, mas assim tão fácil? Segui em frente, relativamente excitado com o prospecto daquilo que me esperaria. Tinha planeado uma volta pela cidade que me permitiria ver todos os pontos importantes. Tijuana (ou a parte que interessa da cidade) não é muito grande e vê-se bem ao longo de um passeio. Pouco depois de passar a fronteira apercebi-me, infelizmente, de que tinha deixado no hostel o mapa que tinha feito e, ainda que me lembrasse mais ou menos do caminho a tomar, certamente que a minha tarefa não ia ser tão fácil sem ele. Felizmente, havia um posto de informações para turistas junto à fronteira e não perdi tempo a lá ir ver se conseguia arranjar um mapa que me ajudasse a orientar na minha visita. Quando me aproximei da porta, um tipo de boné, camisa azul às flores e calções abriu-me, simpaticamente, a porta. Agradeci e dirigi-me ao balcão, onde dois outros turistas pediam informações. Era uma sala pequena com um balcão, duas cadeiras, algumas plantas e uma decoração muito simples. Chegada a minha vez, expliquei que já tinha um roteiro definido e que apenas precisava de um mapa. O senhor deu-me um mapa da cidade e ainda aproveitou para me dar uma ou duas dicas sobre caminhos a percorrer ou coisas para ver. Agradeci e saí lá para fora.



Depois da fronteira, há dois caminhos possíveis para se chegar à cidade, sendo preciso ainda andar uns cinco minutos até lá chegar. Parei em frente a um mapa para perceber em que direcção tinha que ir até que o tipo que me tinha aberto a porta no posto de informação parou ao meu lado e me disse que ia para o centro e me mostrava o caminho. "Ok", pensei eu, mal não ia fazer. Começámos a andar calmamente na direcção que ele indicou, atravessando um viaduto pedonal de onde pude ver uma série de mexicanos com ar de mafiosos a chamarem quem passava para ir lá em baixo. Ligeiramente assustador e, de certa forma, reminescente de um qualquer cenário gangster mexicano/porto-riquenho ao bom estilo de Hollywood. Ele chamava-se Juan e mal descobriu que eu era português não perdeu tempo a contar a história do melhor amigo dele, o Xavier. Dizia ele que o Xavier era português mas vivia nos Estados Unidos há muito tempo (apurei depois que "há muito tempo" significava qualquer coisa como quarenta e tal anos) e tinha uma casa em San Diego e outra em Tijuana. Claro que estava a achar a história mais que duvidosa mas o Juan parecia-me boa pessoa e super simpático por isso não me preocupei muito com o que me pudesse acontecer. Ele chamava-me Andrú numa mistura saudável entre André e Andrew e, uma vez que tinha engraçado com ele, sugeri que ele me mostrasse a cidade a troco de um almoço. Só queria perder até cerca de seis horas em Tijuana, tendo ainda bastante para ver em San Diego nessa tarde, e esta era uma boa forma de o conseguir.

Fomos andando calmamente pelas ruas junto à fronteira, passando em vários pontos de interesse que eu queria ver e fotografar. Estava maravilhado com as cores que adornavam as montras, as piñatas, as decorações... tudo! De vez em quando parava para tirar fotos e o Juan, pacientemente, lá parava também - nunca deixando de falar. O Juan ficou amigo do Xavier quando, há muitos anos atrás, o Xavier precisou de fazer umas entregas em Tijuana precisando de assegurar que nada lhes fosse acontecer - ao contrário do que tinha sucedido até aí, em que lhe roubaram alguma mercadoria. O Xavier pediu ao Juan que, quando a entrega fosse feita, ele tomasse conta dela até que alguém a fosse buscar e o Juan fez como ele lhe tinha pedido. Ele disse-me que era material de construção mas eu tenho as minhas dúvidas de que não fosse algo menos legal. Como lhe tinha explicado por alto o que queria ver, traçámos os dois um pequeno roteiro do que íamos fazer. Não era exactamente como o que tinha feito (e deixado no hostel) mas era bom o suficiente. Começámos pelo El Popo Market, na zona norte da cidade e no seguimento do tal viaduto pedonal à saída da fronteira. Era um mercado de comida, que primava pela abundância de cor e variedade, que aparentava ter algum movimento. Estava fascinado com a realidade mexicana. Nada seria mais típico que andar num mercado ao domingo de manhã, e eu estava a adorar a experiência. As minhas conversas com o Juan passavam muito pelas diferenças culturais que existem entre os Estados Unidos, o México e até a Europa. Apesar de tudo, o Juan era um homem (nos seus cinquentas?) que tinha pouco de burro e que já tinha vivido muito - as histórias comprovavam-no.



Passámos pelo Tijuana Arch, que é um arco gigante que serve de ponto de encontro, e seguimos por uma das avenidas principais, a Revolución. Pelo caminho fui tirando fotos a várias coisas interessantes ou diferentes que ia vendo, incluindo uma zebra de Tijuana, que mais não passa de um burro pintado com riscas brancas, de modo a parecer uma zebra. Cruel? Provavelmente, mas não deixei que isso me impedisse de querer ver uma. Em Tijuana tudo é oferecido a troco de um preço. Quando vi o burro, ajeitei-me para tirar a foto e, mal o fiz, o dono do burro veio de onde estava para me dizer que não podia tirar fotos sem pagar. O Juan, sempre meu defensor, disse-lhe curtamente para ele se ir embora. Afinal, pensava eu, não só tinha um guia como também tinha um guarda-costas. Nada mau! Ainda não estava completamente seguro de que não ia ser raptado algures mais à frente no dia mas a realidade é que, até então, não tinha razões para duvidar do Juan. Contava-me ele, ao longo do caminho, que às vezes ajudava pessoas a conseguir vistos no aeroporto. Inclusive, houve um arménio que tinha deixado o visto americano expirar e foi até ao México para conseguir voltar para casa. Uma vez no aeroporto teve alguns problemas de comunicação com os serviços fronteiriços que, aparentemente, não primam por saber falar inglês. Felizmente para ele, o tipo que trata dos vistos é amigo do Juan e prontamente lhe ligou para ele ir ao aeroporto ajudá-lo naquela situação. Lá chegado, o Juan foi posto ao corrente do que se passava, indo depois falar com o arménio. Depois de explicada a situação e tendo descoberto que o arménio só precisava de autorização para poder voltar para a Arménia o Juan foi falar com o amigo dele que, espantado com a simplicidade do pedido, lhe disse que sim, que não teria problema algum, mas que o arménio teria que pagar $300 pelo serviço! O Juan voltou para ao pé do arménio para lhe dar a boa nova e repetiu o que o guarda lhe tinha dito, dizendo que para eles conseguirem o visto ele só teria que lhe pagar $450. Dizia-me ele depois que existe muita corrupção no México e que havia duas maneiras de conseguir alguma coisa: ou esperando (muito tempo) ou pagando. Disse-me também que o arménio o tinha contactado de novo para voltar a fazer a mesma coisa e que ele estava com receio que ele fosse terrorista. Curiosamente, até ele o mencionar, isso não me tinha passado pela cabeça.


O dia estava quente e, consoante as horas iam avançando naquele domingo preguiçoso, a fome ia aumentando. Tinha-lhe dito que queria comer um burrito ao almoço, mas que era vegetariano e não podia ser um com carne. Pedi-lhe para me levar a um sítio típico para eu comer uma verdadeira refeição mexicana. Ele disse que conhecia um sítio onde poderia haver o que eu estava à procura e pusémo-nos nessa direcção. Fomos até um mercado que tinha - no meio de mais lojas cheias de produtos às cores, piñatas e comida - um restaurante pequeno e modesto. Tinha meia dúzia de mesas quadradas com cadeiras de plástico e toalhas com um padrão espampanante. Ele disse que ali era um bom sítio e eu não questionei. O menu estava todo em espanhol, o que me complicou um bocado a tarefa. Pedi duas Coca-Colas e um prato de nachos enquanto ele pedia o burrito para mim, deixando claro à senhora que não era para levar nenhum tipo de carne - apenas arroz, feijão e guacamole. Depois de mais um prato de nachos lá veio o burrito. O melhor burrito. Aquele burrito que só vou conseguir igualar, em termos de sabor, quando voltar ao México. Estava delicioso. Os nachos, produto da casa, tinham um sabor infinitamente melhor que qualquer uns que eu tivesse comido na Europa. Não conseguia deixar de sorrir, era mesmo aquilo que eu queria ter experienciado. Ele não me deixou que lhe pagasse o almoço porque tinha, aparentemente, comido muito ao pequeno-almoço. Ofereci a Coca-Cola e os nachos, era o mínimo que podia fazer. A conta, que me foi primeiramente dada na moeda local, igualava um total de qualquer coisa como $8 americanos. Refeição em conta! Eu queria dar $2 de gorjeta mas ele não me deixou, explicando-me depois que a dona do restaurante, percebendo que eu não era de lá, me estava a cobrar pelos nachos - algo que normalmente é oferecido de graça. Achei engraçado. Não é como se me tivesse feito muita diferença. Estou mal habituado no que toca a receber coisas sem pagar.


Demos uma pequena volta no mercado e seguimos em direcção ao Centro Cultural de Tijuana (mais conhecido por Cecut) que ficava ali a uns poucos quarteirões de distância. Tinha curiosidade em ver este edifício por causa da forma que tem. Basicamente, é... uma bola. Uma bola com uma porta. Não entrei; não acreditei que houvesse algo interessante o suficiente para o fazer. Continuámos a descer a rua, muito porque eu lhe tinha dito que precisava de comprar um postal de Tijuana antes de me ir embora. Ele disse que havia um centro comercial que certamente que teria postais e lá fomos nós. Enquanto íamos a caminho ele contava-me mais sobre a vida dele, nomeadamente sobre os anos em que viveu nos Estados Unidos, como carpinteiro. Não era bem carpinteiro, era algo semelhante. Uma espécie de mestre-de-obras. Durante os anos setenta, ele foi para os Estados Unidos e começou por restaurar bombas de gasolina para gringos. Começou numa escala muito pequena até conseguir ter, uns anos depois, um pequeno negócio com outros mexicanos. Não percebi qual foi a ligação entre isso e ele ter sido apanhado a traficar uma tonelada de droga, mas acabou por ser essa a razão para a deportação para o México. Antes de chegarmos ao centro comercial passámos uma série de rotundas que eu tinha curiosidade em ver, por terem todas imponentes estátuas no meio. O centro comercial era, de facto, bastante grande e foi preciso andarmos um pouco para finalmente encontrarmos um sítio que tivesse postais. Ele tinha dito que lá havia e não desistiu até encontrar onde houvesse - numa livraria que tinha uma secção perdida onde por acaso havia postais.


Depois disso e com quase tudo já visto, voltámos para trás. Ele ia-me deixar até à fronteira, que ficava num sítio diferente da outra. Pelo caminho ainda parámos para ele falar com um ex-polícia (que me foi apresentado) que lhe disse que a vida estava complicada. Ele disse-me depois que no México a polícia é muito corrupta e que aqueles que querem fazer bem, normalmente acabam despedidos e a ter que arranjar outros trabalhos - normalmente como seguranças. Não foi uma história muito feliz. Uma vez chegados à fronteira, que era muito diferente da outra - a começar por ter um relvado vedado com arame farpado e uma fila gigante de mexicanos a tentar entrar no Estados Unidos - fui comprar uma bebida, já que o calor fazia-se sentir e bem. Perguntei-lhe se ele queria alguma coisa para beber e, de novo, ele disse que agradecia mas que não queria. Enquanto esperávamos na fila, algo que parecia ainda ir durar uns bons vinte minutos, ele comentou que era estranho haver pouco trânsito em direcção aos Estados Unidos. Eu sugeri que talvez fosse por causa do 11 de Setembro e ele, espantado, comentou que sim, que tinha que ser isso. Aparentemente, o trânsito naquela zona costuma ser nada menos que infernal.


Quando já estava perto de entrar no edíficio, o Juan - estendendo-me a mão - disse que se ia embora, que tinha gostado de me conhecer e desejou-me boa sorte para o resto da viagem. Eu agradeci e apertei-lhe a mão. Mal me virei para a frente, ouvi-o chamar por mim e virei-me de novo. Ele perguntou-me, timidamente, se lhe podia dar uns trocos para uma cerveja. Eu, mais que agradecido pela visita, disse que sim e tirei uma nota do bolso. A primeira que saiu foi uma de $5 e foi essa que lhe dei. Ele agradeceu e seguiu. Não foi até algum tempo depois que tomei consciência de que lhe devia ter dado mais. Certamente que ia precisar deles mais do que eu, fosse para comprar cerveja ou qualquer outra coisa. Achei a realidade do México muito distante da realidade confortável dos Estados Unidos ou da Europa - por muitos problemas que ambas possam ter. Uma vez dentro do edíficio, que mais não tinha que um corredor com três filas distintas, tentei colocar-me na fila certa. A meio do corredor havia três sinais rectangulares grandes, presos no tecto, com avisos e siglas que eu não sabia o que significavam. Havia poucos gringos e, como tal, eu estava meio perdido e sem saber para onde me virar. Decidi passar do corredor do meio para o da direita e, pouco confiante na decisão tomada, decidi perguntar para o ar, à minha volta, se alguém sabia qual era o corredor certo para mim. Uma senhora branca, de seus cinquenta anos, perguntou-me em tom de brincadeira "de onde era, para ver se podia ir para aquela fila." Disse que era português e juntei-me à fila do meio, ao pé dela. Rapidamente, entre dois dedos de conversa, descobri que ela era host mum de uma série de miúdos que estavam atrás dela. Era um casal checo, um suiço e um japonês, todos eles no seus vinte e poucos anos que estavam nos Estados Unidos para melhorar o inglês. Fui apresentado a todos eles e depois, enquanto esperávamos, voltei à conversa que estava a ter com ela. Disse-me que era inglesa mas que vivia em San Diego desde os anos sessenta. Depois de eu contar a minha história - ou o porquê da minha visita - ela ofereceu-se para me dar boleia até à cidade, evitando assim ter que apanhar o tram. Aparentemente, a viagem de carro demora cerca de quinze minutos e eu tinha todo o interesse em chegar a San Diego o mais depressa possível!


Passar a segurança foi uma experiência interessante, principalmente devido ao nível de amadorismo que a circunda. Pareceu-me que só quem tinha passaportes do México é que tinha problemas em passar para o outro lado da fronteira, mas posso estar enganado. A mim, depois de já ter passado - mais à frente, junto à saída - perguntaram-me se já tinha mostrado o passaporte. Eu disse que sim e foi o suficiente para me deixarem ir. Fácil. A senhora tinha estacionado o carro - uma carrinha familiar - perto dali e não demorou até que estivessemos todos na auto-estrada a caminho de San Diego. Ela deixou-me, simpaticamente, junto ao sítio para onde queria ir: a escultura do Unconditional Surrender, junto ao USS Midway (que é um porta-aviões gigante). A escultura, com cerca de oito metros de altura é baseada numa fotografia famosa com um marinheiro a beijar uma enfermeira em Times Square, Nova Iorque, depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Depois de tentar, infrutiferamente, tirar uma foto em que fizesse caber o porta-aviões decidi prosseguir, para aproveitar o dia ao máximo antes do sol de pôr. O meu próximo destino era uma ponte, única, suspensa entre duas ruas. Estava algo curioso em relação a isto. O caminho até lá fez-se mais ou menos bem; tive que subir uma colina ligeiramente inclinada numa zona residencial muito calminha e parei pelo caminho para comprar algo para beber, já que o calor ainda se fazia sentir com relativa intensidade.


A ponte em si não era nada de especial mas o facto de ser suspensa e estar colocada entre duas ruas torna-a em algo único. Atravessei-a para o lado contrário, aproveitando para testar a estabilidade com um ou dois saltos, e voltei para o mesmo sítio. Mais que tudo, são estes pequenos pormenores que gosto de encontrar nas cidades que visito. Daí até ao Balboa Park foi uma caminhada curta. O parque, que tinha bastante para ver, é uma parte importante da cidade, não só por causa do tamanho mas também por causa da arquitectura (maioritariamente reminiscente da Espanha durante o seu período colonial) e por servir de casa a um grande número de museus. Dei uma volta demorada por lá a tirar fotos aos edifícios que se destacavam mais e não consegui deixar de achar que estava a passear em Valência ou Sevilha, tal era a influência arquitectónica. Os jardins estavam repletos de cactos, algo que achei extramamente curioso mas nem de todo descabido. Afinal de contas, ali faz imenso calor! Depois de sair do parque, desci até chegar ao centro da cidade e, em vez de virar por um caminho que conhecia, decidi seguir em frente para ver onde ia dar. Passados alguns quarteirões comecei-me a sentir o único branco na zona, algo que normalmente não é bom sinal. Virei na primeira oportunidade que tive e acabei por ir parar ao estádio dos San Diego Padres - a equipa local de baseball. O estádio estava aberto e eu aproveitei para ir espreitar. Não estava lá ninguém a não ser um grupo de miúdos a jogar baseball num relvado e um ou dois pais com os filhos. O estádio era imponente, em tons de azul. À saída cruzei-me com um segurança e perguntei-lhe porque é que o estádio estava aberto. Ele disse que era por ser dia de jogo (a equipa ia jogar fora) e que eles abriam o estádio para os adeptos poderem ir ver o jogo. Não percebi bem onde mas também não estava muito interessado em fazê-lo através de uma televisão, diga-se. Depois de lhe dizer que gostava de lá ir ver um jogo de baseball ele disse, efusivamente, que seria um orgulho ter-me lá e que para a próxima tinha que ir a San Diego num dia em que os Padres jogassem em casa. Ficou registado.




Daí até ao hostel era um saltinho e eu fui lá deixar as coisas que tinha comprado durante o dia. Não era muito, mas eu preferia não ter que andar com sacos. Uma vez de volta à rua, decidi ir até ao último sítio que tinha na minha lista: um centro comercial ao ar livre numa rua paralela à do meu hostel. O sol já se tinha posto e não havia muito mais para fazer. Quando lá cheguei as lojas já estavam todas fechadas e a volta não foi mais do que uma de reconhecimento. O edifício era arquitectonicamente interessante, destoando um pouco dos edifícios à sua volta graças às cores e formas que o compunham. À saída passei no cinema para ver se havia alguma sessão a começar daí a pouco tempo. Não há nada como ir ao cinema depois de um longo e cansativo dia, nada mesmo! Infelizmente as sessões ou já tinham começado ou eram daí a muito tempo e, como tal, decidi voltar para o sítio de onde tinha vindo. Em frente ao hostel havia um cinema e eu ia apostar nesse, podia ser que tivesse algum filme que me interessasse. Antes de ir, parei numa pizzaria onde comi aquela que foi, muito provavelmente, a pior pizza de sempre. Sem exagero. Não sei bem o que é que aconteceu ali (se calhar foi por ser domingo e 11 de Setembro...) mas a pizza estava perto de intragável. A pizzaria era daqueles compridas com o balcão ao fundo e várias mesas. Quando pedi as fatias, o tipo - de origem europeia de leste - disse que não tinha ali, mas que preparava se eu quisesse. Eu disse que sim, embora devesse ter dito que não, uma vez que ele era bastante rude e estava na cara que ele não ia preparar uma pizza inteira só para mim. Tirou duas fatias do congelador e aqueceu no microondas. Assim. Lição aprendida, a mim não me apanham noutra destas.

Depois de acabar de comer, enquanto via as fotos do dia, segui para o cinema. De todos os filmes em exibição, o único que me despertou algum interesse foi o Apollo 18 - um filme de horror supostamente sobre o porquê do homem nunca ter voltado à lua. Comprei o bilhete e fui dar uma volta, para ver se encontrava doces mais baratos do que os que estavam à venda no cinema. Encontrei uma loja de conveniência e abasteci-me aí, voltando quase de imediato para o cinema. A sala estava praticamente vazia e o filme acabou por ser uma valente porcaria, como quase sempre me acontece quando vou ao cinema nos Estados Unidos. Valeram os doces. Segui directamente para o hostel, onde ia aproveitar para arrumar a mochila e pôr os papéis em ordem para o dia seguinte. Quando cheguei ao quarto, estavam lá as australianas, a descansar de um dia longo na praia. Entre conversas, acabei por descobrir que elas estavam a viajar há cerca de dez meses, usando as contas poupança para tal. Esse momento foi, provavelmente, o momento mais importante de toda a viagem. Eu estava contente com a viagem que tinha feito, embora estivesse algo triste que estivesse a chegar ao fim. Quando elas disseram aquilo eu pus-me a pensar em como seria viajar daquela forma. Eu sabia que fazer o que eu fiz em duas semanas era uma espécie de feito, mas não deixavam de ser duas semanas. Qual iria ser o meu próximo objectivo? O meu próximo destino? O mundo? Tinha que ser. E em vários meses, talvez um ano. A ideia instalou-se confortavelmente na minha cabeça e não mais voltou a sair. Não demorou muito até que apagássemos a luz e, desta vez com um confortável silêncio lá fora, não me custou muito a adormecer.

DIA 12 - 12/09/2011 (SAN DIEGO/PHOENIX/LAS VEGAS)
Fui o primeiro a despertar, pouco passava das sete horas da manhã. Ia voar nessa manhã para Phoenix e queria chegar ao aeroporto com alguma antecedência. O meu historial de voos quase perdidos é grande o suficiente para eu já ter aprendido a lição várias vezes. Desci do beliche e vi pela janela que o dia estava tão quente e agradável como os anteriores. Fui à casa de banho lavar os dentes e, antes de descer para tomar o pequeno-almoço, voltei ao quarto para ir buscar a mochila. As australianas dormiam e eu tentei fazer o mínimo barulho possível para não as acordar. Quando cheguei à cozinha, estranhei estar fechada e fui perguntar à recepção o que é que se passava. Aparentemente eles só servem pequeno-almoço ao fim-de-semana. Como não me apetecia estar a parar pelo caminho decidi que comia qualquer coisa no aeroporto antes de voar. Pedi direcções para o aeroporto e pus-me a caminho. O começo de dia estava quente e prometedor. Chegar ao aeroporto era fácil: bastava apanhar um autocarro a duas ou três ruas do hostel que me levaria lá em cerca de meia hora. Não tive que esperar muito por ele e, uma vez já lá dentro, sentei-me enquanto ouvia música.

Duas ou três paragens depois da minha entrou um senhor - já de idade, de estatura pequena - que se sentou ao meu lado entre sorrisos. Depois de se sentar olhou para mim e perguntou, naquilo que eu deduzi ser italiano, se eu era italiano. Eu disse que não e perguntei-lhe se ele era, ao que ele respondeu que sim, obviamente. Basicamente, ele vivia nos Estados Unidos há mais de cinquenta anos e esteve em San Diego a visitar um amigo. Não percebi bem para onde é que ele ia, uma vez que não se calou durante a viagem toda e eu fiquei baralhado passados nem cinco minutos. A conversa começou por ser sobre a minha viagem, mas rapidamente descambou para ele a criticar os americanos e a falar saudosamente de Itália e da Europa em geral. Uma das partes da conversa - e a que eu achei mais interessante - foi sobre os americanos, genericamente falando, estarem sempre bem. Estão sempre com um sorriso na cara, sempre que se pergunta "how are you?" eles respondem que está tudo óptimo. Mesmo quando não está. O exemplo que ele deu foi que (pelo menos) na Europa do sul as coisas não são bem assim e as pessoas não tem problema nenhum em dizer aquilo que lhes passa pela cabeça. Se as coisas não estão bem, é essa a resposta. De novo, genericamente falando, os americanos parecem viver imersos num mundo de superficialidade que os leva a querer esconder do resto do mundo aquilo que realmente pensam - principalmente se for algo negativo. O senhor acabou por sair uma paragem antes da minha, num terminal diferente, e antes de sair apertou-me a mão e desejou-me boa sorte para o resto da viagem.

Fiz o meu check-in sem grande pressa, numa das máquinas para esse efeito, com uma assistente da companhia aérea. Entre dois dedos de conversa com a assistente e depois de ela ver no passaporte que eu era português, não perdeu tempo em dizer que o piloto tinha comprado lá uma casa recentemente. "Ok," pensei eu, "agora já ouvi de tudo." Por mero acaso, o piloto passou por lá nessa altura e ela fez questão de o chamar para lhe dizer que eu era português. Perguntei-lhe onde tinha comprado a casa e ele disse que tinha sido no Algarve (claro...!). Não resisti a perguntar porquê Portugal, ao que ele respondeu com um encolher de ombros. Não é como se as praias do Algarve fossem assim tão melhores que as da Califórnia para justificar um voo de mais de quinze horas com um ou duas paragens pelo caminho. A zona de segurança ficava ali ao lado e depois de completar o check-in foi para lá que me dirigi. Pus-me na curta fila e, chegada a minha vez, dei ao senhor aquilo que eu julgava ser o bilhete de embarque. Ele olhou para mim e disse que aquilo era o recibo. Pedi imensa desculpa e voltei para trás, não estava em pânico mas era certo que naquela altura preferia ter tido o bilhete na mão! Mal contornei a fila para voltar para as máquinas, cruzei-me com a assistente que tinha ajudado a fazer o check-in e que, prontamente, me parou para me dar o bilhete, uma vez que tinha reparado que eu me tinha esquecido dele na máquina e estava a ir à minha procura.

Mais descansado, lá voltei para a fila, acabando por passar à frente de quem tinha chegado entretanto porque o segurança me reconheceu e chamou-me. O aeroporto era grande e com muitos terminais, embora aquele fosse dos mais pequenos. Isto devia-se possivelmente ao facto de este ser um terminal para voos de curta distância. A minha ideia original era fazer a viagem de San Diego para Phoenix de camioneta mas, não só era o preço o mesmo do que o do voo, mas também demorava mais doze horas - tempo que eu certamente preferiria empregar de outra forma. Ir a Phoenix era uma comodidade - não havia assim tanta coisa lá que eu quisesse ver. Decidi marcar dois voos, relativamente baratos, para poder chegar lá de manhã e ir para Las Vegas de noite. Assim sendo, nesse dia iria acordar em San Diego, passar o dia em Phoenix e adormecer em Las Vegas. Não me parecia mau plano, até porque ia ficar a conhecer mais uma cidade. Sentei-me em frente à porta de embarque a comer uma taça de fruta com iogurte e mais uma carrada de coisas saudáveis até que a porta de embarque abriu e lá fui eu. O voo não ia demorar mais do que uma hora por isso não estava muito preocupado com o que fazer durante a viagem. Acabei por encostar a cabeça e fechar os olhos para descansar um pouco até chegarmos. Foi uma viagem muito calminha, emborao o avião viesse completamente cheio. Atrás de mim ia um soldado que foi a viagem toda a falar com duas miúdas de vinte e tal anos que lhe estavam a fazer todo o tipo de perguntas sobre o Iraque. Como adormeci não consegui apanhar bem o fio à meada. A única coisa que deu para perceber foi a forma como os americanos respeitam aqueles que servem o país na guerra. Ainda ouvi uma ou outra vez alguém agradecer-lhe directamente pelo que fez. Realidades diferentes? Certamente.

Eu sabia que havia um shuttle gratuito do aeroporto para o centro de Phoenix, mas não sabia onde é que o tinha que apanhar. Mal saí do avião e me encontrei no terminal, fui em busca dele. Depois de sair em duas ou três portas que não me levaram a lado nenhum, decidi ir perguntar no balcão de informações se me sabiam informar onde poderia apanhar o tal shuttle. À minha frente estava um tipo que não falava nada de inglês a tentar perceber as indicações que lhe estavam a dar. Ainda esperei uns bons cinco minutos até que ele percebesse para onde tinha que ir e se pusesse a andar dali para fora. Expliquei rapidamente à senhora o que queria e ela indicou-me num mapa para onde teria que ir. Não ficava longe de onde estava e pus-me lá num instante, embora ainda tenha tido que esperar algum tempo pelo próximo shuttle. Phoenix tem a particularidade estar localizada no meio do deserto. Sem exagero! É mesmo no meio do deserto. Eu já tinha lido que o calor lá era abrasador e que as pessoas não andavam na rua durante o dia por causa disso. Achei que era um bocado exagerado, mas tomei nota mental na mesma. Não foi até sair do shuttle, junto a uma paragem de metro (de superfície) que me apercebi da veracidade do que tinha lido. Não era um calor normal. Não era o calor um dia quente na praia. Era um calor infernal, mais facilmente comparável a uma sauna do que a qualquer outra coisa. O ar estava muito abafado e não havia uma brisa, por mínima que fosse. Nada. Tive que esperar pelo metro, que me ia levar até ao centro, de onde tinha planeado ir a pé até um museu gratuito. Assim, poderia aproveitar para ver a cidade pelo caminho. Não tinha uma agenda muito cheia para Phoenix; a curiosidade sobrepunha o interesse.

A temperatura dentro do metro estava bestial e foi algo relutantemente que saí na minha paragem. A cidade é pequena e muito fácil de perceber. Olhando para o mapa é quase impossível de não perceber onde se está. Comecei a andar em direcção ao tal museu, que ainda ficava a uns três ou quatro quilómetros de onde estava. Felizmente, o caminho não tinha nada que enganar: era só ir sempre em frente! O calor era, de facto, insuportável. A meio do caminho comecei a pensar se aquela tinha sido uma boa ideia, mas estava destemido a cumpri-la até ao fim - desse por onde desse. Os edifícios tinham quase todos uma tonalidade creme, como se fossem construídos de areia e os canteiros, por estranho que soe, só tinham cactos. Viam-se muito poucas pessoas na rua e, salvo raras excepções, as lojas aparentavam estar fechadas. Pouco antes de chegar ao museu, parei no meio da estrada para tirar uma foto quando fui abordado por um polícia que estava de moto (numa daquelas americanas, bem grandes). Como estava de costas e com os headphones nos ouvidos, não o vi nem ouvi chegar. Não fosse o microfone que ele tinha no capacete estar ligado a umas colunas na mota, provavelmente ele ia ter que me ter dado um toque no ombro para eu dar conta da presença dele. Quando me apercebi que estava ali alguém, tirei os headphones dos ouvidos e perguntei se estava tudo bem. Ele perguntou-me o que é que estava a fazer, e eu respondi que estava a tirar uma foto. Ele, muito pouco simpaticamente, disse que ali não se tiravam fotos no meio da estrada e mandou-me ir para o passeio. Isto numa rua deserta. Acreditei ser um sinal de que estava no sul dos Estados Unidos, onde as mentalidades são - notoriamente - mais reduzidas. Fui para o passeio como ele me mandou, mas não sem antes tirar a minha foto.



Antes do museu havia um parque que eu também queria ver. O parque - chamado Wesley Bolin Memorial Plaza - servia de casa de uma série de memoriais (vinte e nove, para ser mais concreto) que eu queria ver. Não supreendentemente, a maioria eram sobre a participação dos Estados Unidos nalguma guerra e consequente perda de vidas humanas. Ou isso ou sobre paz. Dei por lá uma volta, vi a âncora do USS Arizona (que afundou no ataque a Pearl Harbor, em 1941) e decidi ir para o museu, uma vez que o calor já me estava a começar a afectar. Enquanto atravessava o parque vi um grupo de presidiários a arranjar a relva e a recolher folhas secas. Digo presidiários porque estavam todos a usar fatos-macaco cor de laranja e não tinham o melhor dos aspectos. O museu - chamado Arizona Capitol Museum - era maioritariamente sobre a história do estado do Arizona ao longo dos tempos e tinha a particularidade de estar localizado no edíficio outrora usado como Capitólio do Estado, estando arquitéctonicamente bem conservado tanto por dentro como por fora. Depois de entrar, perguntei ao senhor da entrada se podia deixar a mochila nalgum sítio e ele levou-me a uma salinha que serviria de bengaleiro. Agradeceu a minha visita e interesse no museu e disse-me para ir lá no fim da visita para ir buscar a mochila.



A minha primeira paragem foi num dos muitos bebedouros que estavam espalhados pelo museu. Ainda que eu tivesse água comigo na mochila, certamente que estava já muito longe de fresca. Daí segui para o último andar (de três), para ver o museu de cima para baixo, como o senhor da entrada tinha recomendado. Era um museu grande e com bastantes coisas para ver. Como não estava com grande pressa fui perdendo algum tempo em cada sala que passava. Ainda que houvesse bastantes coisas que não me interessavam por aí além, também haviam muitas coisas interessantes. Algumas das salas tinham sido restauradas de modo a ficarem como eram quando o capitólio ainda estava activo e foi nessas que acabei por perder mais tempo. Antes de sair ainda fui a uma secção dedicada ao USS Arizona, tendo depois passado pelo bengaleiro para ir buscar a minha mochila. Passei pelo bebedouro e saí. Cá fora, o calor não tinha acalmado nem um bocadinho. Eventualmente por causa disso, estava a ficar ligeiramente afectado e as energias parecia que estavam a ser-me sugadas. Sentei-me num banco de pedra à sombra mesmo à saída do museu, tirei os ténis e fiquei lá sentado cerca de meia hora. Estava derreado - o termómetro marcava qualquer coisa como cerca de 40º e eu estava a senti-los bem.


Para além do museu, não havia assim muito mais que me interessasse ver na cidade. Tinha planeado dar uma volta pelo centro só para ver como era e foi isso que fiz. Levantei-me e voltei para trás, pelo mesmo caminho de onde tinha vindo. Apesar de estar um calor horrível, o dia não estava solarengo. Viam-se nuvens e o céu estava com uma tonalidade azul-escura ligeiramente medonha. Depois de andar um bocado para trás, de volta para o centro, parei num Five Guys (uma cadeia de fast food que me tinha sido bem recomendada) para almoçar. Vendo bem, estava na hora disso! O restaurante era grande, todo em tons de vermelho em branco, muito simples. Tinha sacas de amendoins à entrada que lhe davam um ar engraçado e acolhedor. Pedi um hambúrguer vegetariano, que não constava no menu mas que o tipo que me serviu fez o favor de preparar. Basicamente, enfiou uma série de vegetais num pão e chamou-lhe um hambúrguer. Por mim estava mais que óptimo, tudo tinha belíssimo aspecto. A bebida era de máquina e quando me fui servir não pude deixar de sorrir de alegria quando percebi que ia poder tirar Coca-Cola de baunilha - esse néctar dos deuses. Sentei-me lá numa mesa, sozinho e meio expectante em relação ao que ia comer. Na mesa ao lado da minha estava um tipo a ser entrevistado para trabalhar lá e tirando eles os dois, apenas mais uma mesa estava ocupada.

A comida cheirava deliciosamente bem e, como costumo fazer neste tipo de restaurante, antes de desembrulhar o hambúrguer, comi uma meia dúzia de batatas fritas para preparar o estômago. Mal deitei as primeiras à boca, percebi a diferença: tinham sido fritas em óleo de caju, que lhes dava um sabor fora do normal e bastante especial. Estava maravilhado, e nem sequer tinha chegado ao "prato principal". O hambúrguer vinha embrulhado em papel prata e mal dei uma dentada fui levado ao céu por alguns segundos. O pão, que era feito numa mistura com ovo que lhe dava uma textura especial, era óptimo, e a mistura com os vegetais e o queijo não lhe ficava nada atrás. Tentei saborear a refeição ao máximo, enquanto ia empurrando com a Coca-Cola de baunilha. Cheguei ao fim mais que satisfeito e contente por me terem recomendado aquele sítio.


Depois de acabar de comer saí em direcção ao centro, que não ficava muito longe dali. As ruas continuavam desertas e eu continuava mais ou menos asfixiado com o calor mas certamente que não ia ficar sentado à espera que chegasse a hora de ir para o aeroporto. Já que lá estava, ia conhecer a cidade. Andei e andei e andei, sempre sem ver grande coisa a não ser prédios. Uns altos, outros baixos - nenhum demasiadamente impressionante. Ainda passei num centro comercial semi ao ar livre que parecia ter praticamente todas as lojas fechadas. Dei lá uma volta e tentei regressar para a zona mais central. Tinha na minha lista passar pelo bar gerido pelo Alice Cooper e tinha ideia de como lá chegar. A caminho ainda apanhei dois tipos algemados, sentados no passeio em frente a um carro com as portas abertas com dois polícias junto a eles - o tipo de espectáculo que me deixa sempre interessado, eventual influência de demasiada televisão americana. Desta vez nem percebi bem o porquê do incidente. Segui caminho calmamente, tendo ainda tempo para andar uns bons vinte minutos na direcção errada até olhar para o mapa e me aperceber disso. Voltei para trás até encontrar o tal bar, onde pretendia parar para tomar uma bebida e onde contava ficar a relaxar até ser mais perto da hora de ir para o aeroporto.


A caminho, como sempre acontece nos Estados Unidos quando apanho uma rua sem trânsito, decidi atravessar com semáforo para os peões ainda vermelho. Um indivíduo, nos seus vintes, que estava ao meu lado a olhar para o telemóvel enquanto esperava pelo verde, atravessou comigo, apercebendo-se a meio que tinha atravessado com o vermelho. Por reflexo começou a andar quando eu comecei, julgando que o semáforo já estava verde. Depois de dar conta do que tinha acontecido, riu-se e agradeceu-me a boleia. Nos Estados Unidos é proíbido atravessar a rua com o sinal vermelho e toda a gente cumpre isso à regra. É incrível. Faz-me imensa confusão ver uma rua sem trânsito nenhum e pessoas paradas às espera que o semáforo fique verde. Quando cheguei ao bar estava um sinal gigante à entrada a dizer que nesse dia fechavam mais cedo por causa de uma festa. Como já passava da hora que lá estava marcada não deu sequer para entrar. Não fazia a muita questão em lá ir, mas estava com algum interesse. Não fiquei muito aborrecido por não o fazer. Continuei a descer a rua do bar e dei de caras com o Chase Field, mais conhecido por ser o estádio dos Arizona Diamondbacks (que são uma equipa de baseball). Tirei uma ou duas fotos, comprei uma garrafa de água fresca numa máquina de rua e fui-me sentar na paragem do metro, à espera que passasse um para o aeroporto. A minha visita a Phoenix ficava assim concluída. Não desgostei de conhecer a cidade mas tinha vivido perfeitamente sem o ter feito.


O voo só saía às oito e pouco da noite por isso ainda ia ficar um par de horas no aeroporto à espera. Quando lá cheguei, depois de apanhar o metro e esperar pelo shuttle, encontrei uma cadeira junto a uma tomada eléctrica e aproveitei para me sentar lá a carregar o telemóvel enquanto usava a internet gratuita do aeroporto. Deviam ser cerca de cinco horas e tal quando lá cheguei, de modo que passada cerca de uma hora e meia - já meio farto de estar sentado, ainda que estivesse fresco e confortável - decidi ir procurar a zona do check-in. O terminal não era muito grande, mas tinha vários andares e era meio confuso. Felizmente, acabei por encontrar o que procurava com alguma facilidade e folguei em ver que o check-in já tinha aberto para o meu voo. Uma vez passado pela segurança, fui até à porta de embarque e sentei-me lá numa cadeira à espera do embarque. Mais uma vez, o voo ia ser curto - menos de uma hora - e eu, muito provavelmente, ia aproveitar para fechar os olhos depois de um dia estranhamente desgastante. Não tinha grandes planos para Las Vegas nessa noite. Ia chegar lá por volta das nove e meia e estava a pensar ir deixar a mala ao hotel e ir dar uma volta pelos casinos, só para ver como era. A experiência em Reno não tinha sido a melhor e eu estava meio preocupado que Las Vegas fosse ser apenas uma versão aumentada de Reno.

Cheguei lá uma hora e pouco depois de ter saido de Phoenix; o voo, apesar de vir cheio, foi bastante calmo. À saída deu logo para perceber que tinha entrado noutra dimensão: néons por todo lado, muitas cores berrantes, máquinas de jogo... Parecia que tinha ido parar a um casino e não a um terminal de aeroporto. Desci para a zona de recolha de bagagem e, depois de recuperar a minha mochila, saí cá para fora para ver se arranjava uma forma de ir para o centro da cidade. Infelizmente era menos simples do que eu pensava e, ao contrário de Reno, não havia shuttles gratuitos para os hotéis. Compreensível, uma vez que a escala da cidade não era bem a mesma! Fui para o terminal de autocarros do aeroporto e tentei perceber qual é que era o que me ia servir para chegar ao hotel. Como o meu hotel - o Imperial Palace - ficava na Strip (a avenida principal, onde estão a maioria dos grandes casinos e hotéis), era relativamente fácil de lá chegar. Bastava apanhar um autocarro que passasse lá perto e ficava a questão resolvida. Encontrei um que parecia servir e apanhei esse. Ao entrar, perguntei à condutora se o autocarro passava onde eu queria - só para confirmar. Ela disse que sim e eu fui-me sentar, à espera de ver o hotel algures à minha volta para poder sair. Eu tinha visto nos mapas que, de carro, o aeroporto não ficava muito longe do centro da cidade e não estava a contar que a viagem demorasse muito tempo. Passados cerca de vinte minutos comecei a estranhar o facto da Stratosphere Tower - um dos últimos hotéis na Strip - estar cada vez mais perto. Algo não estava certo e eu já estava a ver a minha vida a andar para trás mais uma vez. Carreguei no botão para sair na próxima paragem, danado com a condutora por não me ter avisado quando passámos na minha saída. Sabia que não tinha razão para estar chateado, mas não consegui evitar. Não é como se eu não lhe tivesse perguntado se o autocarro parava onde eu queria sair.


Saí, portanto, no meio do nada. O autocarro foi sempre numa avenida paralela à Strip e foi por isso que não percebi que devia ter saído muito tempo antes. Estava numa rua larga mas com muito pouca iluminação para além do luar. As casas não era muito altas e não se via uma única alma viva na rua. Comecei a andar na direcção oposta àquela de que tinha vindo, sabia que chegando perto da Strip só tinha que virar à direita e andar mais um pouco nessa direcção para me conseguir orientar. Estava chateado com o engano, por causa disso já não ia - muito provavelmente - poder dar a volta que tinha planeado para essa noite. Continuei a andar, cruzando-me pelo caminho com casas de alterne, lojas de massagens tailandesas e um ou dois grupos de indivíduos que não inspiravam a maior confiança. A minha ideia de Las Vegas estava longe daquilo que estava a presenciar. Pude então confirmar que para além da Strip, Las Vegas é uma cidade sombria e sem alma - longe da perfeição e beleza artificial da sua avenida principal. Parei numa estação de serviço para comprar qualquer coisa para comer, uma vez que ainda não tinha jantado e estava com fome. Perguntei ao senhor da caixa se estava no caminho certo e ele disse que sim. O cenário continuava longe daquilo que eu esperava encontrar, mas dava para perceber que já não estava longe.

Depois de chegar à Strip fui até ao meu hotel, que ficava mais ou menos a meio, em frente ao Caesars Palace. Ainda foi uma boa caminhada, fazendo com que chegasse lá já bastante tarde, perto das onze da noite. Pus-me na fila para o check-in à espera da minha vez e, para meu espanto, ainda tive que esperar aí uns bons vinte minutos tal era a quantidade de pessoas à minha frente. Não podia ter pedido uma melhor recepção por parte da cidade...! Só me faltava apanhar um elevador avariado. Chegada a minha vez, fiz o check-in e subi para o meu quarto, que ficava no décimo sexto andar. Finalmente deparava-me com algo positivo: o quarto era gigante e tinha duas camas gigantes, não ficando a televisão nada atrás em termos comparativos. Tudo era grande. A casa de banho era brutal e tinha todo o tipo de coisas que se espera de um hotel. Um autêntico luxo, se tivermos em conta o resto da viagem! O quarto não tinha sido muito caro, há sempre boas promoções à espera em Las Vegas. Pode parecer estranho mas, pensando bem no assunto, parece apenas lógico que os donos dos hotéis prefiram baixar o preço dos quartos de hotel para atrair mais pessoas para os casinos. Burros não são certamente! Claro que o preço baixo tinha um incoveniente: a vista! A varanda do quarto dava para o hotel do lado, dando para ver a Strip apenas meio de esguelha. Tirei a mochila das costas, passei a cara por água e desci. Não estava a resistir à tentação de ir jogar pela primeira vez em Vegas! Como estava cansado decidi ficar-me pelo casino do hotel, nem que fosse para dar sorte. O casino era grande e estava dividido por secções, de um lado tinha máquinas de jogo (desde slot machines de todos os tipos e feitios até video poker e outros jogos dos mesmo género) e do outro as mesas de blackjack, poker, baccarat, etc. Joguei em várias slot machines e máquinas de video poker até gastar o dinheiro que tinha orçamentado para essa noite e voltei para cima sem, obviamente, ganhar o quer que fosse. Felizmente não tenho jeito nenhum para ser viciado em jogo senão creio que fosse ter um ou outro problema enquanto lá estivesse. Do que tinha visto até então, Las Vegas correspondia exactamente áquilo que tinha lido sobre ela: uma Disneyland para adultos. Desde as pessoas grudadas às slot machines, passando pelo barulho que vinha das mesas de poker e pelo ritmo frenético com que tudo acontecia, Las Vegas estava-me a conquistar aos poucos - contrariamente à ideia que eu tinha, baseado nos acontecimentos de Reno, no início viagem.

Já no quarto - exausto - lavei os dentes e fui-me deitar. No dia seguinte ia ter que acordar muito cedo para ir visitar o Grand Canyon. A visita era guiada e o autocarro saía de Las Vegas de madrugada, estando a saída do meu hotel agendada para as seis da manhã. Isto significava que ia ter que me levantar por volta das cinco e tal da manhã, um panorama que não me agradava nada. Liguei o despertador do telemóvel e deitei-me naquela que foi, muito provavelmente, a melhor cama em que dormi durante toda a viagem. Era grande e era super confortável. Não demorou até que adormecesse profundamente, mergulhado no conforto da almofada e do colchão.